REVIEW – Fire Emblem: Fortune’s Weave só não é o JRPG perfeito por um motivo que não tem como ignorar

Imponente e com a ambiciosa abordagem de contar uma história sob a perspectiva de diferentes personagens controláveis, Fire Emblem: Fortune’s Weave foi lançado no dia 17 de setembro exclusivamente para Nintendo Switch 2. O novo jogo desenvolvido pela Intelligent Systems é o 24º título da franquia Fire Emblem, sendo o 15º da série principal iniciada em 1990 com Shadow Dragon and the Blade of Light no Famicom, para nós brasileiros o famoso Nintendinho.

Fire Emblem: Fortune’s Weave é um caso incomum na atual indústria de jogos por ser um game com mais de 100 horas de duração muito bem preenchidas, e que não é todo dia que vemos a própria Nintendo lançando algo com duração tão longa. Mas também não é como se a Big N não tivesse lançado algo tão robusto assim na geração Nintendo Switch. Temos The Legend of Zelda: Tears of the Kingdom (2023) e Xenoblade Chronicles X: Definitive Edition (2025), para ficar apenas em dois exemplos recentes que renderam análises bem extensas aqui na Emerald Corp.

A riqueza de conteúdo, somada à história tão bem construída e entrelaçada dos protagonistas, inclusive fez com que eu escrevesse aqui no site primeiro um review em andamento para falar sobre um recorte relevante, porém pequeno perto de tudo o que o novo Fire Emblem ainda reservaria.

Embora agora você esteja lendo a análise definitiva de Fire Emblem: Fortune’s Weave, mesmo assim optei por não dar spoilers específicos sobre a trama. Então, se você ainda não jogou e pensa em futuramente conhecer, pode seguir a leitura com tranquilidade.

Como destaquei no texto anterior, essa ambiciosa e imponente proposta com mais de 100 horas de entretenimento faz parecer ser um jogo complexo à primeira vista. E isso pode assustar, especialmente quem nunca teve contato com um título da linha principal da franquia (meu caso). Por outro lado, quem é fã de Fire Emblem pode ter certeza de que tem uma obra-prima para apreciar, com uma ampliação desse mundo e diversas referências que não trazem prejuízos aos que pouco ou nada conhecem da série, mas certamente contribuem para que os fãs apreciem ainda mais todo o enredo.

O primeiro grande trunfo desse novo exclusivo do Nintendo Switch 2 é saber dosar muito bem os tutoriais de combate, a variedade de classes disponíveis, as dinâmicas de renome e de recrutamento de novos personagens para compor as equipes de cada um dos 4 protagonistas que enfrentarão os desafios dos Heroic Games, os jogos heróicos realizados em Dagsion, a capital do império de Dagda, para que um desejo seja concedido ao vencedor.

Tem bastante coisa para aprender, mas a cadência das informações é agradável. Os jogos da franquia Xenoblade Chronicles, em especial o que mencionei antes, também são robustos e com uma gameplay bem diversa que adiciona novos elementos mesmo já estando há dezenas de horas jogando, então essa situação é algo que a Nintendo e seus estúdios estão bem familiarizados e costumam trabalhar bem para que não seja limitante e desinteressante.

O novo Fire Emblem acredito que leve uma pequena vantagem em relação ao Xenoblade Chronicles, que é o fato de ser um RPG tático por turnos, e não um combate que mistura estratégia e tempo real como é o caso da série desenvolvida pela Monolith Soft. Outro motivo que faz com que Fire Emblem: Fortune’s Weave seja amigável a um público mais amplo é a possibilidade de escolher entre duas dificuldades (normal e difícil), e também 2 modos de jogo, sendo um casual em que as tropas perdidas retornam na próxima batalha, e outra clássica em que os mortos são perdidos pra sempre.

Vale destacar também outro aspecto acolhedor, que é a possibilidade de ativar mudanças na aparência de alguns inimigos baseados em insetos, algo bem importante para quem tem algum tipo de fobia.

Uma história, 4 protagonistas, diversos backgrounds e futuros possíveis

O embate entre o bem e o mal é tão presente nas narrativas quanto o ar que a gente respira. Obviamente Fire Emblem: Fortune’s Weave trilha esse caminho, mas arrisca fazer o que nem todos os jogos têm coragem (ou qualidade narrativa) para desenvolver, que é criar um enredo em que nem todo mundo é 100% bom ou mau.

Tanto os protagonistas, quanto os diversos NPCs com os quais interagimos ao longo da jornada são repletos de camadas. O passado de cada um importa tanto, ou até mais, do que o presente e as motivações para o futuro. Há várias dinâmicas pensadas inclusive para que você conheça mais sobre os personagens não jogáveis recebendo alguma recompensa útil para o progresso, sem fazer com que as atividades sejam meras side quests apenas para encher horas de gameplay.

Em Fire Emblem: Fortune’s Weave, o personagem principal (chamado apenas de protagonista) deve viajar pelo tempo para reunir aliados e derrotar o Deus demoníaco Balor e salvar o mundo. Isso é feito em parceria com Fortuna, a Deusa da Causalidade (God of Causality), sob ordens de Sothis, a Deusa progenitora.

Fortuna é uma personagem muito importante para o desenrolar da história no novo Fire Emblem exclusivo do Nintendo Switch 2
Fortuna apresenta a mecânica para voltar ao passado | Créditos: Emerald Corp

A viagem ao passado durante o período dos Heroic Games tem como objetivo colocar nossas habilidades estratégicas à prova em batalhas para guiar 4 heróis em suas jornadas entrelaçadas do passado ao futuro. A palavra-chave aqui é guiar, e não interceder, afinal algo modificado no passado afetaria ainda mais a linha do tempo, podendo gerar algo muito distante do que o objetivo de salvar o mundo. Isso significa que o jogo entrega diversos finais baseados tanto no sucesso, ou não, da missão principal, bem como também baseado nas jornadas individuais de cada protagonista.

Antes de chegar ao santuário onde é desbloqueada a mecânica de voltar no tempo, dediquei cerca de 5 horas para ser apresentado ao essencial da narrativa, aos comandos básicos, e ao combate estratégico visto de cima tal qual um tabuleiro de xadrez. Esse período conta com diversas cutscenes dubladas que contextualizam bem a história, mas sem ser monótono graças à cadência agradável dos tutoriais.

Nessas 5 horas senti que sabia bastante sobre a jogabilidade e me sentia preparado para as batalhas, até então apenas vistas de cima. No entanto, mal sabia eu que Fire Emblem: Fortune’s Weave iria começar de verdade somente agora, quando Fortuna explica mais sobre a grande ameaça causada pelo Deus demoníaco Balor e por que nosso protagonista deve ir ao passado.

Cai, Dietrich, Theodora e Leda são os 4 heróis que controlaremos para tentar salvar o mundo. Cada personagem possui seu próprio background e motivações pessoais para irem em busca da vitória contra outros poderosos guerreiros. O protagonista que controlamos inicialmente se mantém conectado a cada uma das histórias sendo um pássaro branco, o Pale Raven Bird, com o qual é fundamental fortalecer os vínculos sociais para garantir benefícios de suporte e melhorar atributos de cada guerreiro, inclusive dos demais membros das equipes.

Leda, o meu impactante início em Fire Emblem: Fortune’s Weave

Escolhi começar a viagem ao passado controlando Leda e, sinceramente, não tenho qualquer arrependimento. Sua motivação pessoal é intrigante e complexa ao mesmo tempo, pois envolve vingar o assassinato de seu pai ocorrido durante um ataque que destruiu o vilarejo liderado pela sua família.

Sabe aquele tipo de história de vingança em que a personagem vai atrás de todos os responsáveis pela violência cometida, algo como vemos em Ghost of Yōtei (2025), por exemplo? A situação aqui trilha esse caminho, mas num contexto de combate tático por turnos.

Fire Emblem: Fortune’s Weave reserva ótimos plot twists na jornada de todos os protagonistas, mas talvez os de Leda sejam os mais marcantes porque a personagem é frequentemente confrontada por diversos personagens sobre a sua motivação for uma sede de vingança custe o que custar. Isso inclusive torna mais interessante a sua participação nos Heroic Games, pois o objetivo maior não é necessariamente a vitória na competição, e sim dar cabo a um personagem específico no meio do caminho.

Se você gosta de histórias que te prendem, o jogo certamente entrega isso e de maneiras que te fazem ativamente participar do desenrolar da história individual dos heróis para atingirem seus objetivos pessoais, mas também como um guia ao redor na figura do Pale Raven Bird.

Leda também se destaca porque uma de suas armas é a vilhuela Obsidian, uma relíquia familiar similar a um violão que é bastante poderosa, mas também possui efeitos colaterais perigosos se usadas de maneira imprudente. Essas “reações adversas” se traduzem tanto nas batalhas, com o uso excessivo causando Burst (interrupção dos bônus e redução dos pontos de vida do herói pela metade), como também nas cutscenes.

Há uma missão específica relativamente cedo na jornada da Leda em que uma ameaça ronda a capital durante as noites. Tempos depois se descobre que há uma relação com o artefato da heroína, o que adiciona mais uma camada de complexidade e riqueza ao enredo da personagem.

Esses artefatos com efeitos colaterais são chamados de Drake’s Treasure e estão presentes nas vidas dos 4 heróis de maneiras bem diferentes, evitando que a fórmula seja repetitiva. Isso me lembrou o funcionamento das Relíquias do Milênio do Yu-Gi-Oh! e outros tantos exemplos da cultura pop em que os poderes podem ser usados para o bem, mas há algo misterioso e forte o suficiente para fazer com que a pessoa sucumba ou perca a sanidade e passe a fazer o mal.

A vilhuela é fundamental não só para o combate e para as cutscenes, como também para as missões de ganhar prestígio em Dagsion. Leda precisa se apresentar na capital de Dagda e em várias outras cidades do reino para aumentar seu nível de renome e, com isso, ter mais opções de NPCs para recrutar. De todos os personagens, acredito que ela é a que tem as dinâmicas mais completas nos preparativos para enfrentar os desafios dos Heroic Games, e por isso foi a minha favorita.

Fire Emblem: Fortune's Weave é o primeiro jogo da série principal de Fire Emblem exclusivo do Nintendo Switch 2. Saiba mais.
Cai, Dietrich, seu protagonista, Theodora e Leda | Créditos: Nintendo / Divulgação

Dietrich, uma motivação diferente e curiosa

Alternar entre os 4 heróis se torna possível após a primeira hora de jogo, mais ou menos, em Dagsion. É quando você realiza os primeiros tutoriais com o protagonista em vigor e então desbloqueia o contato com o Pale Raven Bird na cidade, o que possibilita voltar ao santuário para escolher uma nova história.

As jornadas acontecem em paralelo, o que significa que você pode fazer a mudança de protagonista a qualquer tempo, algo muito legal e que foi realmente bem feito. Nesse contexto, Dietrich foi o segundo personagem com quem joguei, e seu início é bastante diferente da realidade vivida com a Leda.

O herói está em uma viagem de barco no meio de uma grande tempestade quando, de repente, uma criatura gigantesca ataque a embarcação. Ao acordar em uma ilha desconhecida, Dietrich logo precisa se defender e mostra que é um personagem muito poderoso. Lá ele rapidamente encontra Fabio, outro personagem vindo do continente de Fódlan, que está em Dagda com outra motivação não relacionada aos objetivos do protagonista.

A gameplay inicial é bem diferente da realidade dos demais heróis, embora também seja baseada no combate por turnos visto de cima como um tabuleiro. Dietrich logo vai a um vilarejo onde descobre que criaturas poderosas estão ameaçando o local, além de se ver envolvido em meio a um conflito com uma personagem, Esmeralda, que estava injustamente presa e prestes a morrer.

Esses monstros que estão tocando o terror no vilarejo são a faísca que leva o protagonista aos Heroic Games. O motivo é curioso: Dietrich descobre que, se vencer o torneio, poderá ter um desejo realizado. Por ser um guerreiro poderoso e sempre em busca de adversários que lhe deem desafios reais, sua motivação é ganhar a competição para poder enfrentar a criatura que destruiu o barco em que estava.

Cai, uma jornada entre jovens e mistérios na família

Cai é um herói que destoa de todos os outros: ele é um jovem de 14 anos, prestes a celebrar o 15º aniversário, e a data que era para ser especial acaba revelando o primeiro de vários mistérios envolvendo sua família.

Ao invés da busca por vingança ou por um adversário formidável, aqui temos um garoto acompanhado pelos jovens amigos Tialla e Peter tentando entender tudo o que aconteceu de um dia para o outro e logo tendo que ir a Dagsion junto com seu pai, Castor, para descobrir por que ele urgentemente precisava ir ao local naquela ocasião.

Seu background é o menos completo, afinal se trata de um jovem de 15 anos, mas o que torna sua construção interessante é que já estamos no controle conforme vamos descobrindo sobre seu passado e vivendo seu presente para construir o seu futuro, cuja motivação pessoal envolve seu pai, e nos Heroic Games terá então essa intersecção para salvar o mundo.

Há um momento cedo na jornada de Cai em Dagsion em que seu caminho se cruza com o de Theodora de maneira surpreendente, o que me deixou satisfeito por tê-la deixado para depois de ter jogado com o jovem herói.

Theodora, a faca na caveira de Fire Emblem: Fortune’s Weave

É treta familiar e reviravoltas tensas que você quer? É isso que você tem desde cedo ao trilhar o caminho com Theodora.

Rainha Theodora não está para brincadeira… | Créditos: Emerald Corp

A heroína logo se vê diante de duas situações intrigantes que não darei spoilers, mas que fazem com que ela seja o que a própria divulgação do jogo destaca: rainha. O início da sua jornada é tão violento quanto o de Leda, mas aqui numa escala mais reduzida, pois os enfrentamentos a envolvem diretamente.

É numa dessas brutalidades que a coloca diante do tesouro de Drake chamado Mahadu’s Arm (Braço de Mahadu), que passa a ser o seu braço direito. Se por natureza esses artefatos possuem efeitos colaterais, imagine como será o comportamento de uma protagonista alvo de traição e que ainda perdeu um braço no processo…

Por isso que me surpreendi com o acontecimento envolvendo Cai e Theodora: como ainda não conhecia todos os detalhes do passado da heroína, fiquei boquiaberto ao ver como foi a interação inicial entre ambos heróis. O contexto dessa protagonista é bastante diferente dos demais, pois ela é uma espécie de bomba-relógio, o que torna sua jornada muito envolvente e interessante.

A dinâmica de Theodora em Dagsion também difere bastante dos demais, pois ela não precisa recrutar aliados para os Heroic Games, e também possui menos turnos disponíveis no seu primeiro capítulo, fazendo com que sua exploração seja mais limitada, mas sua expansão da lore tenha mais elementos políticos e de bastidores, digamos assim, do império liderado por Solel, o Deus do Sol.

As interações durante cutscenes também costumam ter duas alternativas para escolher como a rainha deve se comportar, justamente por conta da sua personalidade intempestiva e também pelos efeitos colaterais do Braço de Mahadu.

Um vasto mapa-múndi e dois tipos de batalhas

Os combates são divididos entre a visão superior com movimentação estilo tabuleiro e as batalhas por turno escolhendo ataque ou alguma outra ação para realizar nesse estilo, chamado Clash, com visão em terceira pessoa por trás dos personagens, o que considero uma alternância bem interessante para tornar a experiência mais dinâmica.

Nos clashes, sua equipe ataca e sofre dano com base no contra-ataque do esquadrão adversário. Esse tipo de batalha é mais comum nas masmorras disponíveis no mapa-múndi, embora também pontualmente aconteçam em outros ambientes. A exploração dessas dungeons é bem interessante, pois não costumam ser extensas e contam com um número agradável de combates. Também vale a pena dedicar tempo para explorar os locais porque costumam ter bons tesouros e, eventualmente, te levam a novos caminhos secretos.

Sobre as batalhas vistas de cima, é muito positiva a variedade de adversários e de efeitos que diferentes terrenos trazem. Os próprios Heroic Games contam com ambientes diferentes a cada batalha, e sempre há uma explicação para o motivo pelo qual o coliseu foi alterado para que passe a ser um deserto ou um local com água, por exemplo. Em relação aos inimigos, chama atenção as diferentes abordagens construídas para que os combates não sejam apenas contra guerreiros, mas também contra animais (algo também presente nos clashes) e até mesmo projeções de robôs.

Uma batalha que gostei muito foi na história da Leda contra Olympia, uma espécie de amiga e rival da heroína. Esse confronto mistura combate estratégico e pontos que precisam ser capturados dentro de 10 turnos, de modo que os personagens que morrem voltam no turno seguinte para tentarem impedir que a outra parte mude a cor da chama dos pedestais que precisam ser dominados nesse período. Então, nesse caso, o critério para vencer é diferente da maioria das batalhas, o que mostra que o novo Fire Emblem consegue oxigenar a gameplay com frequência também em relação à essência do combate.

No novo Fire Emblem exclusivo do Nintendo Switch 2 as batalhas se renovam bastante ao longo das mais de 100 horas de gameplay
Batalha contra a Olympia foi outra boa surpresa por ter começado com a Leda | Créditos: Emerald Corp

Exploração e interações sociais para quem ama RPGs clássicos

Em Dagsion podemos transitar com bastante liberdade pela capital, onde é preciso realizar uma série de tarefas de simulação social, treinamentos e missões secundárias essenciais para adquirir experiência, ouro e reputação. Aumentar o nível de renome é obrigatório para recrutar membros para sua equipe e avançar em áreas fechadas no mapa-múndi.

Se a exploração é livre na capital de Dagda, no mapa-múndi a lógica se torna completamente a de um RPG de mesa e jogos de tabuleiro. Cada protagonista possui um determinado número de turnos para jogar até que chegue o dia da atividade relacionada à missão principal. Cada turno equivale a 6 horas, e isso faz com que você pense em boas estratégias não apenas nas batalhas, mas também ao realizar determinadas atividades.

Cada movimento no mapa-múndi faz passar pelo menos 1 turno. A movimentação nele é muito legal e afastou de vez o sentimento de receio em relação à magnitude de Fire Emblem: Fortune’s Weave. Não que a região do jogo seja pequena, muito pelo contrário, mas poder explorar o mapa vendo de cima e podendo ter mais contexto da grandeza da navegação de casa em casa estilo tabuleiro é uma experiência que me surpreendeu positivamente e percebo como um respiro.

A gameplay no mapa de todo o continente também é cheia de recursos. Você encontra cidades, vilarejos, pontos de pesca e de colheita, restaurantes para desjejuar com a equipe, matilhas de animais ou inimigos para enfrentar no melhor estilo estratégico com visão superior, dungeons, entre outras possibilidades. Embora haja pontos vazios do mapa em que você por vezes vai cair, perdendo um turno sem ter nada para fazer, no geral seu personagem chegará a algum lugar que terá algum tipo de recompensa. E o fato de às vezes não ter o que fazer também é importante, afinal é um elemento para desafiar o seu pensamento estratégico e exigir que você tenha atenção a cada passo.

Outro ponto positivo nesse tipo de exploração é que por vezes mesmo uma ação como pescar é capaz de abrir novos caminhos. Ou seja, nada é em vão no mapa-múndi.

Ainda sobre a passagem do tempo, algo que exige atenção em Dagsion é a possibilidade de fazer fast travel. Cada teletransporte para outra área da capital lhe tira 30 minutos. Então por vezes vai fazer mais sentido ir a pé a um local próximo para não gastar tempo à toa. Outro aspecto que vale destacar é que novas missões surgem com o passar dos dias, e não apenas com a entrega das que estão disponíveis, o que eu gostei muito.

A exploração pelas masmorras também é outra dinâmica que renova a gameplay, oferecendo uma boa quantidade de recompensas e desafios variados. Algumas são cavernas com soldados e lobos, mas eventualmente o combate trará um adversário mais poderoso para te surpreender. Outras dungeons são cavernas escuras em que somente poucos passos no entorno do seu personagem são iluminados e locais pontuais estão com tochas, de modo que a qualquer momento você pode dar de cara com um inimigo e iniciar um clash sem querer e sem ter a oportunidade de dar um ataque na exploração, que se traduz num golpe surpresa antes do início do confronto. Há ainda cenários mais abertos e sob a luz do dia, fazendo com que a ida a esses ambientes seja sempre algo que se renova.

Além de ganhar experiência e eventualmente encontrar bons itens, explorar as dungeons por vezes também é uma maneira de abrir caminhos importantes para a jornada.

Mapa-múndi no começo da jornada com a Leda | Créditos: Emerald Corp

Em relação às interações sociais, essa dinâmica em Fire Emblem: Fortune’s Weave é importante para desenvolver o enredo, como também para enriquecer os aspectos estratégicos do jogo de maneiras variadas. Por exemplo, é preciso prestar serviços a diversos templos em Dagsion para conseguir bênçãos dos deuses, e cada templo possui um dia específico em que os trabalhos recebem bônus, além de que domingo é o dia sagrado, então todos contam com a mesma bonificação nesse dia. Mas não é prudente colocar qualquer dupla de personagens para realizar as demandas, e sim prestar atenção às suas reações na tela para saber quais estão realmente a fim e quais não gostariam, pois isso é o que te garante mais pontos nessa dinâmica e, se a tarefa for perfeita, você ainda recebe de volta o ponto de devoção que seria gasto.

As interações com os NPCs recrutáveis também são obrigatórias, pois tanto a sua reputação, quanto os vínculos com esses personagens são atributos necessários para que você tente recrutá-los. Então, por exemplo, é preciso ler a descrição de cada personagem para conhecer seus gostos pessoais, para então dar o presente mais adequado e potencializar os pontos ganhos que aumentam esse medidor de vínculo. Além disso, há uma grande variedade de guerreiras e guerreiros disponíveis em Dagsion para você tentar adicioná-los ao time, outro aspecto que enriquece a experiência tática.

Existe também a possibilidade de fazer com que 3 personagens aproveitem uma boa refeição juntos nas hospedarias para que os vínculos de suporte entre eles sejam aumentados. Assim como no caso da devoção, aqui os pontos sociais são devolvidos caso todos se satisfaçam plenamente com a refeição escolhida, outro ponto que demanda ter atenção na hora de escolher quais devem ir almoçar ou jantar.

A melhora dos vínculos também pode ser feita nas hospedarias de Dagson, mandando os personagens realizarem atividades com treinamentos focados em aumento de experiência, de XP de habilidades, ou busca por recursos e ouro. Há ainda uma maneira de melhorar seus atributos de batalha, que é colocar 2 personagens para treinar no templo onde acontecem os Heroic Games, o que exige que você escolha a opção de treinamento adequada para a classe dos personagens. Se o treinamento for considerado perfeito, os pontos sociais também são devolvidos.

E por falar em interações e Heroic Games, essa competição também reserva ótimos plot twists pelo fato de que o protagonista que você está controlando naquele momento pode ter que lutar ao lado de outro herói, o que contribui também para um sólido desenvolvimento da narrativa entrelaçada.

Aspectos técnicos e o motivo pelo qual o novo Fire Emblem não é perfeito

A performance de Fire Emblem: Fortune’s Weave é sólida, sem travamentos ou bugs, e o tempo de carregamento ao entrar e sair de algum lugar é praticamente inexistente. Não tem nem como ler a dica que mostra na tela de loading.

O estilo gráfico é muito bonito, levando a franquia a um nível de qualidade que, para o meu gosto pessoal, é superior ao do título anterior, Fire Emblem Engage, lançado em 2023 para Nintendo Switch. O ponto forte daquele game era a coloração viva e que me chamou muito atenção assim que foi anunciado, mas infelizmente não o joguei para ver se algo mais cativa os olhos tanto quanto Fortune’s Weave. É perceptível, no entanto, que elementos visuais dos personagens do Engage serviram de base para essa evolução, que a meu ver aqui também conta com uma interface muito mais agradável.

A trilha sonora do novo Fire Emblem é maravilhosa e diversas vezes apresentou notas claramente inspiradas em outras franquias como Pokémon, Zelda e Nier: Automata (2017), embora esse jogo não tendo qualquer relação com as propriedades intelectuais da Nintendo.

Um aspecto negativo é, para mim, uma perda de oportunidade da Big N com seu próprio console. Um jogo estratégico com visão superior e jogabilidade estilo tabuleiro deveria ter suporte à tela tátil do Nintendo Switch 2. É realmente uma pena que a empresa não tenha trabalhado com a desenvolvedora Intelligent Systems para que esse recurso estivesse disponível nessa plataforma que possui uma tela maior e é mais ergonômico que o Switch anterior.

Por outro lado, o modo mouse está presente aqui, e o tutorial inicial antes de chegar no santuário da Fortuna até te convida a jogar dessa maneira. Eu testei, achei apenas ok, mas reconheço que pode ser útil para quando você estiver jogando no portátil em uma mesa com espaço para navegar dessa maneira. Os controles são adaptados para que as ações sejam simplificadas para o clique do Joy-Con, mas ainda assim acredito que a tela tátil faria muito mais sentido para esse tipo de jogo.

Mas apesar da perda de oportunidade em relação ao touchscreen, não é esse o motivo que me fez entender que Fire Emblem: Fortune’s Weave não consegue ser perfeito. Não se trata de um problema global, então o game é sim perfeito para muitas pessoas ao redor do mundo, mas para nós, brasileiras e brasileiros, o motivo é um velho conhecido: a falta de tradução para o português do Brasil.

Como se trata de um jogo longo, ambicioso e com uma história muito rica, ler as legendas em português brasileiro é essencial até mesmo para quem tem bons conhecimentos em inglês ou outro idioma disponível. Isso porque a história se passa nos anos 1400 e envolve desde guerreiros humildes até a realeza, então o vocabulário quase sempre é complexo. Ora é rebuscado, ora é antiquado, e ora é antiquado e informal.

Diversas vezes tive que abrir o tradutor no celular para ver o significado de uma palavra que não conhecia. Considero meu vocabulário de inglês muito bom para compreender o que está escrito mesmo não sendo fluente no idioma, de modo que consigo jogar tranquilamente outros jogos em que a narrativa tem grande importância, ou ainda que são longos e passam diversas instruções ao longo de dezenas de horas de gameplay, como foi o caso do Xenoblade Chronicles X: Definitive Edition que mencionei anteriormente. Mesmo assim, tive momentos de dificuldade e precisei recorrer à tecnologia para compreender bem um diálogo ou escolher a melhor opção na hora de interagir com o Pale Raven Bird para aumentar os pontos de suporte com esse personagem.

Veredito

Fire Emblem: Fortune’s Weave se destaca por ser um JRPG completo e ambicioso, que tem coragem e sabedoria para construir um enredo sobre o bem contra o mal com personagens cheios de camadas e motivações contrastantes. A magnitude desse jogo de mais de 100 horas pode assustar, mas a gameplay sabe dosar muito bem o ritmo da história e é didática em relação aos seus recursos, fazendo valer cada minuto.

No entanto, o motivo que pode fazer com que seja restritivo para muitos no Brasil é a falta da localização PT-BR, visto que o vocabulário retrata um período antigo com guerreiros e realezas, e por vezes é bastante complexo.

Nossa nota

4,8 / 5,0

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Assista ao trailer:

Ficha técnica de Fire Emblem: Fortune‘s Weave

Lançamento: 17 de setembro de 2026

Desenvolvido por: Intelligent Systems

Publicado por: Nintendo

Plataforma: Nintendo Switch 2

Número de jogadores: 1

Gêneros: Estratégia, RPG Tático por Turnos, Simulação Social

Idiomas: Japonês, Francês, Alemão, Italiano, Espanhol, Coreano, Chinês Simplificado, Chinês Tradicional, Inglês Americano

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