Os filmes de Resident Evil são igualmente icônicos e divisivos. Icônicos porque eles realmente marcaram uma época e fizeram da franquia uma das mais longevas quando falamos de adaptações de videogames. No entanto, são muito divisivos tanto pela qualidade das histórias, quanto pelos diversos caminhos criativos escolhidos, levando a grandes debates entre os fãs dos games, críticos e público geral.
Essas discussões passam, principalmente, pelo fato de Hollywood rejeitar completamente a história criada para os jogos. Chega a ser engraçado que, em todas as adaptações de Resident Evil, nenhuma delas conseguiu minimamente abordar os arcos que tornaram os títulos em grandes sucessos mundiais.
O que acaba levando sempre a mesma pergunta: se nada se salva da história original para ser usada em outras mídias, por que o interesse em seguir adaptando essa franquia? A força de uma marca é o suficiente para manter esses projetos acontecendo?
Aparentemente a resposta é sim. Pelo menos dessa vez Zach Cregger (A Hora do Mal), o diretor do projeto, avisou desde o primeiro momento que não iria adaptar nada dos jogos, admitindo que essas são histórias já bastante conhecidas. E, bom, se os filmes anteriores não receberam tantos elogios, esse realmente se tornou um ponto fora da curva.
Um terrir de zumbi que tira o melhor de seu protagonista, o novo capítulo da franquia nos cinemas surpreende por ser inventivo, criando uma produção segura e que consegue utilizar bons elementos de gameplay.
No filme acompanhamos Bryan (Austin Abrams), um entregador que trabalha levando órgãos e outros materiais muito importantes para hospitais, numa espécie de Correios da saúde. Ao fazer uma entrega à noite, ele acaba recebendo um pedido para levar uma encomenda classificada com grau A para Raccoon City, com a promessa de que receberia o dobro de dinheiro por essa missão.
Com uma situação complicada em casa, ele acaba topando a empreitada, o que coloca o sujeito no pior lugar da Terra em meio à propagação de um vírus mortal.
Durante toda a primeira parte do longa, acompanhamos Bryan sozinho aprendendo como usar armas, se defender dessas criaturas e tentando descobrir como chegar até Raccoon City. Sem sinal, sem mapa, sem balas e sem carro, o pobre coitado sofre mais do que todo mundo, tentando vencer os monstros na base do grito e de muita correria.

Aqui vale dizer que muitas das cenas lembram realmente grandes fases de jogos, com momentos filmados em primeira pessoa, foco na arma e nos tiros, além de uma movimentação mais fluida, sendo um grande acerto da direção de Cregger.
Resident Evil consegue encapsular muito bem aquela sensação de estar dentro de uma fase de videogame, sempre mantendo o espectador na ponta da cadeira com medo de que algo possa acontecer com Bryan. E aqui talvez seja um dos pontos que causam um pouco de controvérsia: o longa realmente consegue emular bem a construção narrativa de um jogo de terror, mas falha em aproximar isso do universo e elementos conhecidos da franquia.
Além do bom trabalho técnico, o roteiro assinado por Cregger e Shay Hatten também trabalha muito bem o humor inerente ao personagem, construção que Austin Abrams consegue aproveitar com maestria. Você se sente muito próximo aos problemas que ele está passando, e Abrams torna os momentos irreverentes em algo natural.
E talvez por ele ser tão bom em conduzir boa parte da história sozinho é que o grande gargalo do filme começa quando outros personagens, um tanto caricatos, são inseridos para elucidar os acontecimentos em Raccoon City.
A explicação da lore fica a cargo de Paul (Paul Walter Hauser), um funcionário atrapalhado da Umbrella Corporation que conta com a ajuda de Maxine (Kali Reis) para levar a encomenda que está com Bryan até os cientistas presos no 28º andar do hospital da cidade. Cabe a eles desenvolver o antídoto para o vírus e evitar que ele se espalhe para todo o mundo.
Desse ponto em diante, a sensação é que o filme se estende um pouco, mesmo que a sua duração seja de apenas uma hora e 34 minutos. As situações que Bryan precisa superar escalam cada vez mais, o que leva a um final um tanto duvidoso e que destoa um pouco do tom que vinha sendo construído até ali.
Num geral, Resident Evil é um bom filme, sendo uma história paralela voltada para uma pessoa comum que, infelizmente, teve o azar de estar no lugar errado e na hora errada. E se a jornada é boa, grande parte dos louros se deve ao excelente trabalho feito por Abrams aqui, que consegue manter basicamente o filme inteiro ancorado em sua simpatia e ótima atuação.
O balanço entre o terror e o humor também funciona bastante, posicionando essa adaptação em um espaço diferente dos capítulos sombrios anteriores. São situações que misturam a ficção, o absurdo e o real, um exercício que é efetivo em boa parte do tempo.
Se esse é o início de uma nova realidade para Resident Evil nos cinemas, ele já começa com o pé direito e cria grandes expectativas para o futuro.
Veredito
O novo filme de Resident Evil é uma releitura da franquia que mescla elementos de gameplay para criar algo próprio. Uma história com cara de spin-off e ancorada no gênero terrir, o longa é um entretenimento que surpreende e diverte em vários momentos, tendo como destaques o excelente trabalho de Austin Abrams junto a já consolidada direção inventiva de Zach Cregger.
3,7 / 5,0
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