“Fogo e Sangue” sempre foi um dos melhores lemas das casas de Westeros, fazendo jus aos precedentes Targaryen. Na terceira temporada de A Casa do Dragão (House of the Dragon), cada vez mais a sina dos descendentes de Aegon, o Conquistador, parece predominar. Ormund Hightower (James Norton), um dos “vilões” desta nova temporada, já antecipa: são selvagens e indignos, tudo o que tocam se deteriora. Não chega a ser nesse nível de loucura religiosa, mas é fato que a perdição dos Targaryen também é consequência do próprio poderio que os colocou no topo.
Ryan Condal assina como o único showrunner da temporada e, depois que a história tomou outros caminhos, o autor George R. R. Martin se afastou da produção. É comum que uma adaptação busque outras formas de contar uma trama, mas o rompimento entre os dois criadores certamente levanta questionamentos. É nítido que a terceira temporada caminha cada vez mais com pernas próprias e isso fica evidente na necessidade de fazer com que todos os personagens sejam importantes, mesmo quando alguns deles já perderam, há tempos, parte de sua relevância dentro da história.
Começamos a temporada acompanhando Rhaenyra (Emma D’Arcy) chegar ao poder. O caminho é árduo: ela perdeu dois filhos para finalmente sentar no Trono de Ferro. A série busca trazer sua dor tanto emocional, quanto fisicamente. Rhaenyra se sente desconfortável no trono, enquanto sua menstruação no mesmo dia da coroação a lembra de que é uma mulher e de que, com certeza, não será bem aceita naquele lugar.
Vemos, então, uma temporada extremamente difícil para a Rainha Targaryen. Cercada de pessoas em quem não sabe se pode confiar, ela se torna cada vez mais isolada e paranoica com tudo e todos. É curioso ver Rhaenyra em uma posição como essa, especialmente quando o público clama por uma personagem mais incisiva e decidida. Mas essa transformação, ou melhor, essa dificuldade em se transformar, também faz parte do seu desenvolvimento.
Ajuda muito que outros personagens, como Daemon (Matt Smith) e Mysaria (Sonoya Mizuno), orbitem ao seu redor. Em especial Daemon, que nesta temporada está mais comedido e, ainda assim, entrega alguns dos melhores momentos ao lado de seu dragão, Caraxes. Do outro lado, Mysaria atua como um contraponto ao príncipe. Rhaenyra sabe que, no fim, precisa escolher entre um e outro, ao mesmo tempo em que decide de que forma irá lidar com o próprio reino.
Se, do lado dos Pretos, a batalha para se manter no poder é dura, do lado dos Verdes os personagens descobrem como é estar por baixo da roda. Alicent (Olivia Cooke), que junto de sua filha Helaena (Phia Saban) passa boa parte da temporada em uma posição cada vez mais vulnerável, é desperdiçada pela série. A Casa do Dragão parece não saber mais o que fazer com a personagem agora que a tornou importante demais. Por isso, ela é arrastada de um lado para o outro sem um desfecho ou uma trama realmente interessante. O mesmo serve para Aemond (Ewan Mitchell), que passa boa parte da temporada em Harrenhal. Já vimos isso na temporada passada com Daemon e entendo que a série queira fazer um paralelo entre os dois, mas realmente isso faz diferença?
Nesse sentido, a redenção um tanto peculiar que a série planta para Aegon (Tom Glynn-Carney) é o melhor que a terceira temporada tem a oferecer. Longe de se tornar um herói, o personagem compreende seu declínio e sua loucura, assumindo sua real personalidade e isso o torna extremamente perigoso. Com um Aegon mais consciente de si mesmo, ele também se torna um perigo maior para Rhaenyra. Sua jornada ao lado de Larys (Matthew Needham) coloca um peso importante na narrativa quando ele finalmente se depara com a barbárie de Westeros. Afinal, o rei não é tão diferente de sua plebe.
Esse é justamente um dos pontos em que a temporada funciona melhor, quando permite que seus personagens sejam confrontados pelas consequências das próprias escolhas, em vez de simplesmente avançar o tabuleiro da Dança dos Dragões. O problema é que a terceira temporada tem muitos núcleos e alguns personagens acabam perdidos no caminho. Incomoda perceber que boa parte dos episódios do meio é composta por pequenas pontas de conflito ou cenas isoladas que, no conjunto, não contribuem de maneira realmente fluida para a história.
Vemos um pouco de Baela (Bethany Antonia) aqui, um pouco de Alyn (Abubakar Salim) ali, Ulf (Tom Bennett) em outro momento, Hugh (Kieran Bew) também, mas nunca de fato exploramos esses personagens. E tudo bem: não existe tempo para isso. O problema é justamente a série insistir em apresentá-los como peças importantes sem dar espaço para que entendamos por que deveríamos nos importar com eles. Não por acaso, o terceiro episódio é o mais alinhado da temporada, sendo justamente aquele em que Rhaenyra está no centro e acompanhamos os acontecimentos a partir de sua perspectiva.
Quando a série escolhe um foco e realmente se compromete com ele, tudo funciona melhor. E isso certamente é algo a se considerar.
Ainda assim, a terceira temporada também trouxe um dos personagens mais emblemáticos de Westeros. Sor Ormund Hightower é um tipo de vilão que adoramos: atrevido, ousado, debochado e inteligente justamente por se aproveitar da falta de inteligência dos outros. Suas jogadas no jogo do trono levam Rhaenyra ao desespero. Do mesmo modo, sua relação com o príncipe Daeron também foi um dos pontos altos da temporada. Entre manipulação e subserviência, ambos trouxeram algo de único para a história e mostraram que ainda existe espaço para personagens que conseguem movimentar a trama sem necessariamente precisarem de grandes batalhas.
Mas, mesmo assim, fica difícil creditar esta temporada como boa quando temos tantas narrativas sem foco, ou seja, A Casa do Dragão carece de mais episódios. Se o objetivo é transformar a Dança dos Dragões em uma história cada vez mais coral, com diferentes personagens e núcleos disputando espaço, é preciso dar a todos eles tempo para respirar. Caso contrário, o resultado é uma temporada que parece um retalho de pequenas doses de histórias e conflitos, algumas muito boas, outras nem tanto, mas que raramente conseguem formar um conjunto fluido. E, em uma história sobre fogo e sangue, é essa falta de espaço para desenvolvimento que acaba deixando a temporada um pouco fria.
Veredito
A terceira temporada de A Casa do Dragão não entrega uma narrativa consistente, perdendo-se ao não garantir histórias convincentes para tantos personagens. Do mesmo modo, a falta de rumo também atrapalha as tramas principais: Rhaenyra custa a sair do lugar, enquanto Aegon é quem recebe o melhor aproveitamento ao longo da temporada.
Com a série se distanciando cada vez mais da obra original, fica difícil prever para onde ela pretende caminhar. Ainda assim, com todos os seus problemas, A Casa do Dragão continua sendo uma das produções mais relevantes da televisão atual e, por isso, é frustrante vê-la desperdiçar algumas das possibilidades que sua própria história oferece.
3 / 5
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Assista ao trailer da 3ª temporada de A Casa do Dragão:
