REVIEW – Lyara desafia e emociona como Celeste, mas com um estilo artístico ainda mais belo

Lyara é um novo jogo indie brasileiro de aventura, plataforma 2D de precisão e puzzle inspirado no clássico Celeste (2018). Desenvolvido e publicado pela Bolha Game Studio, o título foi lançado no dia 30 de outubro para PC via Steam.

Conheci Lyara durante a nossa cobertura da gamescom latam 2026 e logo de cara sabia que precisava jogar, pois o estilo artístico imediatamente me encantou. Por casualidade ou não, no evento gravamos este vídeo com o Júnior Costa, justamente o diretor de arte da Bolha Game Studio, que destacou também a inspiração em Hollow Knight (2017) e Braid (2009). A movimentação fluida lembra bastante o primeiro, enquanto a escolha artística parece ser uma fusão de ambos, e tudo isso aplicado aos gêneros e à temática de Celeste.

Uma belíssima e ousada mistura, não é verdade? Além de tudo isso, a narrativa é um ponto importante, de modo que essa análise não tem spoilers para que você possa viver plenamente essa jornada e se surpreender.

Pois os méritos de Lyara não residem apenas nessa grande mistura. Apesar dos temas referentes à saúde mental, o novo jogo brasileiro não se limita a ser uma releitura de Celeste e desenvolve sua própria identidade de maneira autêntica e, na minha opinião, com uma direção de arte mais bela. Tudo fica ainda mais bonito conforme você vai se dando conta das coisas e entende, ou pesquisa, como os nomes de cada mundo se conectam às cores e aos elementos naturais de seus ambientes.

São 7 mundos ao todo, na seguinte ordem: Muladhara, Swadhisthana, Manipura, Anahata, Vishuddha, Ajna e Sahasrara. Os nomes me chamaram atenção, então pesquisei e vi que são os 7 chakras do hinduísmo. Tenho apenas um conhecimento superficial sobre a religião dos tempos nas salas de aula do colégio e da faculdade, mas mesmo uma pesquisa rápida já é suficiente para que até mesmo leigos que nem eu percebam que cada ambiente foi desenvolvido baseado nas crenças com muito carinho e cuidado.

De maneira bem resumida, os 7 chakras dizem respeito a diferentes áreas do corpo e estão diretamente relacionados à saúde física e mental, além da espiritualidade. Muladhara é o primeiro e se localiza na base da coluna vertebral, na região do períneo ou sacro, e funciona como a base energética, sendo responsável por trazer sensação de segurança, estabilidade, confiança, força física e ancoragem no presente. Por sua vez, o Sahasrara – conhecido como Chakra da Coroa – está localizado no topo da cabeça e, sim, diz respeito à consciência.

Você entendeu os rumos que essa jornada vai nos levar, né? Só acredito que o estúdio perdeu uma boa oportunidade de incluir esses ensinamentos no jogo de uma maneira que fossem acessíveis a qualquer hora no menu de seleção dos mundos, pois ficaria mais fácil para que um público maior entendesse o significado dos nomes e, assim, percebessem melhor como eles estão diretamente conectados a todos os detalhes de cada fase.

Lyara começa a sua aventura assim, do nada, perdida num local desconhecido que é o primeiro mundo, Muladhara. A progressão nos leva por uma desafiadora jornada cheia de puzzles e desafios de plataforma de precisão que são complementados por diálogos dublados pela própria protagonista, tanto suas próprias falas, como também ela imitando os demais personagens, como se estivesse contando a história para quem joga, num agradável tom de conversa informal.

Lyara é um jogo brasileiro de plataforma 2D de precisão inspirado por clássicos como Celeste, Hollow Knight e Braid. Leia a crítica.
Pedir ajuda é um começo muito importante <3 | Créditos: Emerald Corp

A narrativa aborda uma jornada reflexiva de autoconhecimento e, durante boa parte do tempo, te deixa no escuro tal qual a protagonista, sem ter noção de onde estamos e para onde estamos indo. O desenvolvimento do enredo é bem interesse porque pode ser facilmente comparado tanto com as descobertas que você faz em relação a si mesmo em sessões de terapia, como também com a ligação entre os chakras hindus que vão da base até a mente, mas estão intimamente conectados, sem que um seja mais importante do que o outro.

A trilha sonora original é maravilhosa e, na maior parte do tempo, tranquila. Um contraste bem interessante com o stress causado por morrer dezenas ou até centenas de vezes a cada fase, pois o level design é realmente muito bem construído. A jogabilidade é simples e fácil de ser aprendida, exigindo o domínio de apenas 3 botões, mais 1 para reiniciar a área caso você se prenda de alguma forma (ou aconteça algum bug, coisa rara, mas que experienciei 2 vezes). Você pode jogar tanto com o teclado, como com controle, que foi a minha escolha.

A experiência de morrer e tentar de novo lembra muito o provérbio chinês que diz: Não tenha medo de andar devagar, tenha medo apenas de ficar parado. É a famosa tentativa e erro, aqui aplicada a um jogo que acaba sendo uma experiência mais ampla e reflexiva do que “apenas” jogar um plataforma de precisão com puzzles.

Cada mundo tem uma habilidade específica que substitui um dos botões. Por exemplo, ora esse botão será usado para furar bolhas e usá-las para pegar impulso, ora será para acender e apagar as luzes para alternar o cenário entre dia e noite, fazendo assim com que determinados elementos surjam apenas em um dos turnos.

Além disso, os mundos possuem páginas do diário da Lyara escondidas como pontos brancos que piscam no cenário. Por vezes eles farão parte da trajetória natural da protagonista, mas em alguns momentos você precisará ter um olhar atento para encontrá-las e, assim, ter uma noção mais completa da história.

Existem ainda pequenas borboletas verdes espalhadas em diferentes áreas de cada mundo que funcionam como colecionáveis e, em geral, são bem difíceis de obtê-las, pois é preciso pegá-las e levá-las até o fim da área que você estiver para que sejam contabilizadas. Um grande desafio a mais para quem quer platinar o jogo.

Não foram poucas as vezes em que parei e fiquei olhando para a tela pensando: caramba, gurizada da Bolha Game Studio, como foi que vocês pensaram nesses desafios?

Esse print abaixo foi um dos primeiros que eu tirei pensando isso. Levei bastante tempo para superar esse desafio e o anterior, ambos envolvendo os teletransportes coloridos que te jogam de uma cor para a outra igual na fase. Só que depois desses ambientes ainda me vi nessa situação de contemplar a tela com o cérebro fritando mais diversas vezes.

O novo jogo de plataforma 2D de precisão da Bolha Game Studio se inspira em clássicos como Celeste, Hollow Knight e Braid
Era difícil, mas tava longe de ser a última vez que eu acharia algo difícil | Créditos: Emerald Corp

A coordenação para pressionar rapidamente o botão de dash e o da habilidade especial de cada mundo e com timing certeiro é requisito obrigatório para conseguir avançar em Lyara. E aí chegamos em outro ponto muito positivo do jogo: a acessibilidade.

Não há nível de dificuldade, algo bem difícil de implementar num jogo 2D de plataforma de precisão sem alterar drasticamente o level design para cada tipo de experiência. A solução que os desenvolvedores encontraram foi permitir reduzir a velocidade da gameplay, dar 2 ou infinitos dashes, e ter assistência de dash, recurso que congela o jogo para que você escolha para qual lado vai avançar.

O primeiro mundo eu joguei inteiro com o dash único, comportamento padrão de Lyara, mas depois eu decidi usar apenas o dash duplo como facilitação. E olha, a real é que algumas vezes eu superei um desafio usando 2 dashes e até agora não entendi como seria possível ir adiante apenas com 1 comando.

Testei as outras possibilidades para tornar o jogo mais facil e funcionam muito bem, embora eventualmente a situação seja tão caótica que talvez só ativando tudo ao mesmo tempo para que uma pessoa não familiarizada com gênero pudesse ter sucesso (de qualquer forma, se esse é o seu caso, recomendo muito que você experimente, pois vale muito viver essa experiência).

Veredito

Lyara bebe de fontes clássicas e especiais do cenário indie, em especial Celeste, mas consegue se destacar graças à autenticidade e à sua linda direção de arte primorosamente amarrada com os princípios dos chakras do hinduísmo. Um jogo desafiador e emocionante na mesma medida, embalado por uma agradável trilha sonora, que merece ser jogado e servir de orgulho para o mercado brasileiro de videogames!

Nossa nota

4,8 / 5,0

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Assista ao trailer:

Ficha técnica de Lyara

Lançamento: 30 de outubro de 2026

Desenvolvido e publicado por: Bolha Game Studio

Plataforma: PC

Número de jogadores: 1

Gêneros: Aventura, Plataforma 2D de Precisão, Puzzle

Idiomas: Português (Brasil), Espanhol (América Latina), Inglês, Chinês Simplificado e Russo

Preço: R$ 36,99

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