CRÍTICA – Nova adaptação de Carrie reinventa a personagem e o mundo ao seu redor

Carrie é um dos livros mais emblemáticos de Stephen King. Protagonizado por uma mulher e com diversas personagens femininas ao longo da trama, a publicação é um marco na cultura pop e tornou Carrie um símbolo do terror. Assuntos como bullying, crueldade e perseguição contra quem é diferente são frequentes nas páginas escritas por King e, infelizmente, mesmo 50 anos depois, nada realmente mudou.

Sabendo disso, Mike Flanagan revisita essa história por um olhar contemporâneo em sua nova série para o Prime Video, colocando Carrie (Summer H. Howell) como uma personagem do presente e inserida em um mundo repleto de redes sociais e cyberbullying. A crueldade aqui permanece, mas mascarada e escondida, como uma conta falsa que persegue pessoas sem que elas possam se defender.

Para além de Carrie, todo o universo ganha novos contornos. Se Margaret (Samantha Sloyan) odiava a filha a um nível extremo, se mutilando para fazer com que a menina se sentisse culpada e, também, “limpasse o pecado” que tanto a humilhava perante a Deus, aqui as coisas são bem diferentes. A agressão acontece de outras formas, vindo de um lugar de poder e controle que, erroneamente, ela entende como sendo “amor”.

O mesmo vale para Sue (Siena Agudong) e Chris (Alison Thornton). Saindo de apenas colegas de aula para se tornarem amigas, Flanagan opta por aproximar essas duas figuras centrais do livro e construir um novo background para cada uma delas. Chris não é ruim apenas por ser rebelde, existem motivos para ela ser da forma que é, e o roteiro acha caminhos para elucidar isso para a audiência. Já Sue ganha novos traços importantes que valorizam ainda mais a presença dela na trama, tornando a personagem mais ativa nos eventos da série.

Todas essas personagens ganham um passado, uma linha narrativa mais ampla e importante, passando por detalhes que nos fazem conhecer um pouco mais de todas elas. Até mesmo a professora Rita Desjardin (Amber Midthunder) e Tina (Josie Totah) ganham mais espaço, com todas essas histórias sendo transportadas para os dias atuais.

E é claro que, para fazer essas alterações, a lore também precisou ser repensada. As coisas não seguem a mesma lógica, e isso passa também por como Margaret lida com a vida da filha. As redes sociais se tornam um ponto muito central, e o terror daquela trama cruel que colocava Carrie como uma personagem indefesa já não é tão vívido aqui.

A Carrie de Summer H. Howell é querida, divertida, fácil de se relacionar e com fome de conhecer o mundo. Ao contrário de suas outras versões, ela está longe de ser aquela personagem deslocada e que pouco (ou nada) tem interesse em se aproximar de outras pessoas. E o fato de essa Carrie ser mais aberta e simpática é uma completa reinvenção de tudo o que vimos sobre ela até então.

Acho que essa é a palavra principal aqui: reinvenção. Não é apenas uma adaptação pura e simples, mesmo que muitas falas do livro sejam facilmente reconhecíveis ao longo dos episódios. É um mundo completamente novo e que reflete o seu tempo. É evidente que as escolhas aqui têm como foco um público mais novo, pessoas que provavelmente nunca tiveram nenhum contato com essa história e que podem se identificar por meio dos temas tratados ao longo da narrativa.

CRÍTICA - Nova adaptação de Carrie reinventa a personagem e o mundo ao seu redor
Créditos: Divulgação / Prime Video

Ao mesmo tempo em que Carrie consegue criar um universo novo bem ancorado, a forma como esse debate é executado lembra muito outras produções do gênero. Se o livro se tornou um sucesso atemporal por ser diferente e único principalmente pela coragem de abordar as consequências de uma vida inteira de agressões e tortura, a série se distancia desse impacto.

Ainda há muita tragédia nessa nova versão, se estendendo, nesse caso, não só à selvageria do seu ápice, mas na construção de todos esses personagens e o infortúnio que eles passam ao longo de 8 episódios. Entretanto, falta terror, mesmo a tristeza seguindo em grande escala.

Particularmente, acredito que alguns arcos são grandes demais e têm soluções que pouco surpreendem, o que creio ser um ponto fraco e que acaba tirando foco de outras situações que deveriam ter mais relevância. Há um especificamente que me incomodou bastante, principalmente com a simplicidade da condução em meio a tantas outras consequências retratadas na série.

Além das excelentes atuações de Summer e Samantha, que nos mantêm hipnotizados na dinâmica familiar, o que mais me chamou a atenção em Carrie é como a produção conseguiu construir uma ambientação interessante para essa nova fase da personagem. Acredito que os fãs das obras de King vão encontrar diversos easter eggs no decorrer dos episódios, mostrando que essa é claramente é uma série feita com carinho e que pode levar um público novo a querer descobrir ainda mais sobre a obra original e as outras adaptações.

Veredito

Carrie é uma reinvenção da obra original. Ao criar um novo caminho para os personagens e para a história em si, Mike Flanagan deixa um pouco da brutalidade gráfica de lado para apresentar a crueldade de uma maneira traiçoeira, sufocante e implacável. É um bom estudo sobre a tragédia do mundo atual e uma nova forma de aproximar essa história de um público mais jovem.

Nossa nota

3,8 / 5,0

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