Quem poderia imaginar que Pamela Voorhees seria uma personagem tão interessante quanto o próprio Jason? Chegando no Universal+ com todos os episódios no dia 16 de outubro, Crystal Lake, série prequel de Sexta-Feira 13, conta com Linda Cardellini no papel principal e entrega uma das produções de terror mais surpreendentes do ano.
Quem é fã da franquia sabe que ela tem lá suas inconsistências, já que os inúmeros filmes do Jason contam a sua história em pequenas partes e fora de uma linha cronológica realmente concisa. É a partir dessa brecha que Crystal Lake chega como um spin-off para reimaginar a origem desses personagens e colocar Pam em uma posição ainda mais importante para os eventos que serão vistos nos filmes clássicos.
A história aqui mantém o elemento principal: Jason se afoga no Crystal Lake e os crimes passam a acontecer a partir de sua morte. No entanto, o showrunner Brad Kane complementa uma boa parte da narrativa de Pam que, até então, nunca havia sido desenvolvida.
Há mudanças? Com certeza. Entretanto, o grande ponto positivo está em explorar aquilo que vai além do vilão, fazendo um estudo minucioso sobre o luto de sua mãe e sua evolução ao longo do tempo.
E é fácil se ver envolvido pela história, pois ela usa o artifício que o primeiro filme explora muito bem: a presença de Jason como algo sobrenatural. Ele está lá o tempo todo, rondando não só a região, mas o pensamento das pessoas, abrindo espaço para se tornar o pesadelo que todos nós conhecemos.
E essa tensão é bem desenvolvida pelo grande time de roteiristas envolvidos com a série. As homenagens aos filmes de terror dos anos 1980 são perceptíveis, seja pelas locações ou pela forma como os episódios são desenvolvidos. Até mesmo a fotografia é propositalmente similar, criando uma ambientação que transporta o espectador para uma época diferente.
Em um resumo sem spoilers, ao longo dos episódios nós acompanhamos Pam como a cozinheira do camping Crystal Lake. Após a morte de Jason, ela passa longos meses acreditando que o filho continua vivo, afirmando ao policial Levon (William Catlett) que ainda consegue sentir a presença de Jason. O luto acaba agravando a raiva e o rancor de Pam, que logo se vê envolvida em uma série de situações que acontecem na cidade.
Obviamente, algo mais começa a acontecer e a surpresa está em entender que a história da personagem vai além do recorte de Crystal Lake. Existem muitas reviravoltas ao longo dos 8 episódios, mas se todas essas situações realmente conseguem prender a atenção é porque Linda Cardellini entrega uma atuação segura e muito eficiente.

A atriz veterana e amplamente aclamada cria uma Pamela que é, ao mesmo tempo, gentil e assustadora. Essa dualidade da personagem é perceptível em suas atitudes manipuladoras e na necessidade que ela tem de proteger e cuidar dos outros, mesmo que suas ações acabem passando e muito dos limites (para dizer o mínimo).
Sua relação com o Jason de Callum Vinson é um dos pontos altos da série, pois mostra um lado de ambos os personagens que, até então, nós não tivemos a chance de conhecer. Foi algo que eu gostei bastante e não esperava que fosse seguir esse caminho, mas que acredito que vá causar alguma de controvérsia. Por mais que Jason já tenha sido criança queimada, homem de máscara, zumbi, demônio e até esteve no espaço, ainda existe certa resistência quando franquias antigas recebem algum tipo de releitura ou atualização.
Mas para aqueles que sentem falta de revisitar esse universo, Crystal Lake pode ser sim uma boa opção. Há uma quantidade significativa de sangue e mortes, Linda entrega uma atuação excelente em todos os episódios e a história de Pamela é realmente desoladora (e, ao mesmo tempo, um ótimo entretenimento).
Entretanto, nem tudo são vitórias. Os personagens secundários são um tanto simplistas e suas histórias pouco desenvolvidas. Por um lado, é bom, pois o foco segue em Pam e Jason, por outro alguns arcos são introduzidos e rapidamente esquecidos, mas acredito que poderia ter algo um pouco mais sólido nesse sentido. Destaques para Hamish Linklater e William Catlett.
Eu sinceramente gosto do clima de filme antigo que Crystal Lake consegue encapsular, mesmo que sua trama por vezes exagere em algumas explicações. É um bom primeiro passo para o retorno de uma franquia tão amada.
Veredito
Crystal Lake consegue emular muito bem a ambientação dos filmes slashers de 1980, entregando uma trama diferente, e um tanto divisiva, para uma das franquias de terror mais famosas do mundo. Liderada pela excelente Linda Cardellini no papel principal, a prequel de Sexta-Feira 13 mostra que Pamela Voorhees é sim uma personagem tão interessante quanto Jason.
3,8 / 5,0
