Em meio a uma onda de novas adaptações para diferentes mídias, talvez uma das mais curiosas e contraditórias seja justamente a transformação de animações em live-action. Diferente de um livro ou até mesmo de um jogo, em que existem elementos como a imaginação do leitor ou a experiência interativa do jogador, uma animação já apresenta um universo visual pronto. Por isso, a transição para atores reais pode parecer apenas um “copia e cola”.
Mas é aí que mora o maior perigo: quando esperamos que uma produção como Avatar: O Último Mestre do Ar seja exatamente aquilo que acompanhamos na animação da Nickelodeon, estamos esperando algo além de uma reprodução visual; esperamos a mesma identidade, o mesmo equilíbrio entre personagens, narrativa e universo. E é justamente essa consistência que muitas adaptações acabam perdendo no caminho.
A adaptação de One Piece bem que tentou avisar. A Netflix é bastante coerente quando se trata da produção de suas adaptações: desde a escalação dos atores até a construção de cenários, tudo consegue criar o sentimento de estarmos presenciando aquele universo mais uma vez.
O mesmo acontece com a 2ª temporada de Avatar. Existe um senso de revisitação e pertencimento que quase engana o espectador. Mas, à medida que os sete episódios avançam, enquanto Aang (Gordon Cormier) e o Time Avatar correm por Ba Sing Se para salvar o Reino da Terra, a sensação que transparece é a de um roteiro espremido e mastigado que, aos poucos, tira toda a complexidade da obra original.
Que essa é uma fórmula Netflix, todos nós sabemos, mas impressiona o quanto o streaming está rendido a fazer produções que cada vez mais conversam com as redes sociais acima de tudo. Nesse novo arco, Toph Beifong (Miyako) se junta a Aang, Katara (Kiawentiio) e Sokka (Ian Ousley) para derrotar a Nação do Fogo.
Essa é uma das personagens mais queridas da animação e, de fato, a atriz Miyako faz uma atuação decente, mas, infelizmente, a narrativa não faz questão de acompanhar. A cena em que a dobradora de terra inventa a dobra de metal é uma das melhores da animação, mostrando todo o seu potencial. Mas, na série, a construção é corrida, sem tempo e com um texto pobre de espírito.
Mas a segunda temporada também tem seus méritos. Acompanhar como o governo de Ba Sing Se vai ruindo à medida que Aang descobre que o rei é de fachada expõe um dos pontos altos desse universo. O Avatar não é a resposta para tudo; existem forças que vão além dele e que ele não consegue controlar. Ao mesmo tempo, percebemos o quanto Aang cresceu (não só o ator), o personagem que agora começa a sentir o peso do seu título.

Do outro lado, temos Zuko (Dallas Liu), um personagem com um dos melhores arcos de redenção que existem, que se encontra em constante conflito nessa temporada. É interessante como Zuko também começa um processo de mudança ao viver como refugiado: ele vê com os próprios olhos os estragos de sua nação. Ainda assim, não parece o bastante para o arco narrativo do personagem, que ao fazer par com o seu tio Iroh (Paul Sun Hyung Lee), deveria entregar o carisma da dupla, mas a interação é pouca e por isso, sem tanto peso emocional.
Aang e Zuko são os arcos que mais fazem sentido na temporada. Enquanto Katara fica presa ao seu alter ego, sem muito desenvolvimento além de ser o suporte emocional dos outros, e Sokka passa por um luto que nunca é explorado por completo.
Azula (Elizabeth Yu), irmã de Zuko e uma das principais vilãs, tem mais destaque no arco, mas seus problemas com o irmão ou até mesmo com o pai, o Senhor do Fogo Ozai, são sempre deixados de lado para dar espaço a uma vilania um tanto caricata, rendida sempre a caras e bocas.
Além da limitação do roteiro, a falta de cenários também traz à tona o quanto essas séries da Netflix são feitas para um consumo raso. Em vez de voos com o Appa pelo deserto ou cenas de luta emblemáticas com a organização Dai Li, temos o cenário de uma casa ampla, onde se resumem todas as conversas importantes entre o Time Avatar.
Se é possível elogiar algum ponto da produção, são os efeitos especiais no que diz respeito às dobras. Sempre que vemos alguém dobrando, existe um sentido de realidade. Além disso, todo o ensaio das dobras feito pelos atores é ótimo e empolgante de assistir, vide a cena de abertura do primeiro episódio.
Ainda assim, a necessidade de uma série live-action de um universo que funciona perfeitamente em animação é um questionamento. Existe um limiar entre fazer algo por consideração à obra ou por exploração da mesma, e Avatar está na corda bamba.
Veredito
A segunda temporada de Avatar: O Último Mestre do Ar entende a importancia de reproduzir visualmente o universo da animação, mas não consegue se destacar onde a obra original mais brilhava. Ou seja, no desenvolvimento de seus personagens e conflitos. A produção condensa uma história complexa sobre guerra e amareducimento, deixando apenas um impressão do que realmente deveria ser Avatar.
2 / 5
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