Se existe algo que torna o Homem-Aranha tão especial é o fato de que conseguimos facilmente nos conectar com seus problemas. A premissa de que, por de baixo da máscara, o amigão da vizinhança poderia ser qualquer um de nós traz apelo para todas as suas histórias e dilemas. Porém, há muitos anos, as adaptações para o cinema não conseguiam mais encontrar essa essência.
Seja por ter tomado um caminho diferente de como apresentar sua história de origem, seja pela necessidade de obrigatoriamente conectar esse personagem com um universo maior, a verdade é que a Marvel e a Sony não haviam conseguido encontrar essa conexão emocional entre um dos heróis mais amados com o seu público fiel.
Durante muito tempo, o novo Peter Parker interpretado por Tom Holland se afastou completamente da imagem que muitos de nós cultivamos tanto das animações, quanto dos quadrinhos, se estendendo até mesmo à excelente adaptação feita por Sam Raimi.
Não é à toa que até hoje as pessoas citam Homem-Aranha 2 como um dos melhores filmes do herói: uma história que conectava luto, solidão, conflitos e um forte senso de justiça, trabalhando a dualidade tão característica do personagem. Ao mesmo tempo em que ele entende suas responsabilidades, sente o peso de tudo o que precisa abrir mão para cumprir o seu dever.
Ao longo desses quase 10 anos de Peter Parker no MCU, todos esses fatores foram deixados de lado enquanto o Aranha passou a ser uma sombra de outros grandes heróis do universo. Sua relação com Tony Stark (Robert Downey Jr.) foi uma escolha um tanto infeliz, muito por impedir que o personagem se desenvolvesse por suas próprias pernas.
E, bom, o título Homem-Aranha: Um Novo Dia não poderia ser mais adequado para o que parece ser um novo momento para esse personagem. Os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers optam por uma abordagem focada nas raízes que tornam esse personagem tão especial: ele é uma pessoa comum e tem dias ruins, assim como você.
Na história, depois dos acontecimentos de Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, Peter vive uma vida solitária e isolada de todos. Seus amigos não lembram dele devido ao feitiço feito por Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch), ele perdeu sua tia enquanto tentava salvar a cidade e nada do mundo que ele conhecia existe mais.
Toda essa situação coloca Peter em um lugar bem ruim. Ele passa a viver uma rotina que se limita a acordar, visitar o túmulo de sua tia e proteger a cidade. Não há espaço para se divertir, conhecer outras pessoas e nem mesmo buscar algum objetivo maior para tentar ter uma vida melhor.

Coloque nessa equação o fato de que ele passa boa parte do tempo se torturando de uma maneira nem um pouco saudável. Peter assiste constantemente a vídeos de Ned (Jacob Batalon) e MJ (Zendaya) vivendo a vida que eles três haviam idealizado há muito tempo.
Sem saber o que fazer com tamanha dor, seu DNA passa a sofrer mutações e a Aranha começa a tomar o lugar do humano. Peter começa a gerar sua própria teia, perder o controle da sua força e dos seus sentidos.
A situação toda piora quando um novo vilão chega à cidade, colocando a vida de todo mundo em risco. Esse vilão consegue entrar na mente das outras pessoas, com uma dinâmica bem parecida com o filme Possuídos (1998). Dessa forma, a ameaça é basicamente invisível, o que a torna um grande desafio para Peter.
Sem entrar em mais detalhes do que isso, Homem-Aranha: Um Novo Dia consegue, pela primeira vez, colocar Peter Parker em uma trama mais pé no chão. Ele está cuidando de NYC, com problemas mais próximos e mais críveis do que os grandes plots das produções anteriores.
Outro ponto importante é a decisão de manter as escolhas feitas anteriormente e permitir que o personagem tenha liberdade para construir novas histórias daqui pra frente. Se o ensino médio foi um recorte importante na primeira trilogia, é hora da nova fase refletir o seu crescimento e permitir que estabeleça novos desafios a serem superados.
Mas, ainda assim, esse não é um filme apenas do Homem-Aranha. O fato dele ser dividido com outro personagem importante é algo bem executado, mas que tira do herói o espaço para um desenvolvimento ainda melhor.
Por este lado, o universo compartilhado segue sendo um problema sério para a Marvel, principalmente quando a empresa deixou de encarar filmes como produções únicas para transformá-lo em filmes “eventos”. Para quem não acompanha todas as outras produções, algumas coisas podem até passar batido, mas não faz sentido, a meu ver, o Justiceiro (Jon Bernthal) ter uma personalidade um pouco diferente em cada mídia em que é retratado.
Apesar disso, a forma como esses personagens são inseridos funciona bem em vários momentos. Talvez o que menos consiga ser aproveitado é Bruce Banner (Mark Ruffalo) que segue sendo usado como um trampolim para situações “mais importantes”, com desfechos que pouco ou nada importam no fim das contas.
A personagem de Sadie Sink é muito boa, mesmo sendo apresentada em uma situação bem comum. É difícil falar sobre isso sem spoilers, mas é fato que eu não esperava por essa história de origem e me surpreendeu positivamente o fato desse filme conseguir sustentar algumas decisões polêmicas feitas por ela.
Tom Holland e Jon Bernthal estão excelentes. Os atores são colegas de longa data, então ver eles juntos em cena é algo fácil e, por vezes, muito engraçado. Destin Daniel Cretton consegue entregar uma ótima condução tanto de seu elenco, quanto das cenas de ação, mas são nos momentos mais introspectivos de Peter e MJ que sua direção brilha ainda mais.
Essa é provavelmente a melhor história do Homem-Aranha que vemos em décadas. Apesar de alguns efeitos especiais não parecerem tão bons assim, a tensão e o entretenimento funcionam muito bem, explorando uma boa construção da ameaça antes de seu grande ápice no terceiro ato.
Apesar da longa duração (o filme possui 2h25min), o ritmo é bem cadenciado, sem se arrastar ou abordar arcos desnecessários. É uma grande vitória não só para o Aranha, mas também para os seus fãs, que querem muito ver mais histórias humanas como essa ganhando a telona.
Veredito
Homem-Aranha: Um Novo Dia reencontra a essência tão esquecida do amigão da vizinhança. Colocando o coração em primeiro lugar, o longa de Destin Daniel Cretton devolve ao público, e ao personagem, o elemento que o tornou um dos heróis mais famosos do mundo: a sua humanidade. Mesmo com algumas escorregadas, é um longa sólido e um dos melhores do personagem desde os vindouros tempos de Sam Raimi.
4 / 5
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