A segunda temporada de Beef (Treta) chegou ao streaming da Netflix em 16 de abril com a missão de suceder um primeiro ano excelente e amplamente aclamado. Série vencedora de 8 Emmys, a primeira temporada tinha como foco uma premissa um tanto simples, mas que utilizava do elemento catártico de seus episódios como um grande diferencial.
Esse elemento estava amplamente ancorado nas relações humanas, exemplificadas nos altos e baixos vividos pelos personagens principais. Um pequeno desentendimento desencadeou uma série de situações absurdas, e cada episódio dobrava as consequências para manter a audiência vidrada em cada segundo da trama.
Para dizer o mínimo, o primeiro ano é honesto e sem amarras. Extremamente criativo, também usa as músicas que tocaram o coração dos millennials ao longo dos anos 2000 como encerramento em cada episódio, terminando com chave de ouro cada capítulo. Uma execução difícil de replicar, e acredito que Lee Sung Jin, criador da série, sabia disso muito bem.
O novo ano de Beef pouco ou nada lembra a temporada que passou. Em seu elenco principal estão os veteranos Oscar Isaac e Carey Mulligan, além dos grandes novos talentos Cailee Spaeny e Charles Melton.
A trama apresenta o casal Joshua (Oscar Isaac) e Lindsay (Carey Mulligan), que lutam para recuperar a sua relação há muito deteriorada. Eles vivem em uma grande casa, tem o sonho de abrir uma pousada, mas Josh está preso como gerente em um clube frequentado apenas por pessoas muito ricas.
Paralelamente vemos Ashley (Cailee Spaeny) e Austin (Charles Melton), um casal muito apaixonado que acabou de noivar. Ambos são funcionários do clube e sonham em ter uma vida melhor. Na verdade, eles sonham em estar juntos, mas a vida entra no meio e o foco passa a ser ter condições de ter um plano de saúde e dinheiro para comprar o que precisar.
Após receberem a missão de entregar a carteira que Josh esqueceu no trabalho, Ash e Austin acabam presenciando uma grande briga entre ele e Lindsay. A situação é filmada por Ashley e logo se torna a moeda de troca para todos os acontecimentos da temporada.
E bom, nesse primeiro momento, parece que a segunda temporada vai seguir o mesmo direcionamento do ano anterior: a raiva e o rancor movimentando boa parte da trama pra frente.
Mas, conforme os episódios vão passando, Beef demonstra um desenvolvimento muito maior do universo ao redor desses personagens do que no ano anterior. A disputa de classes, o quanto o 1% do 1% se reorganiza para manter os pobres cada vez mais pobres, e como todos nós vivemos presos a esse estágio do capitalismo que só corrói a sociedade.
Lee Sung Jin parece querer escancarar a hipocrisia dos vários níveis da classe rica e não poupa esforços para usar do clube como um grande estudo de personagem para todos os envolvidos na situação. De uma pequena chantagem para conseguir um emprego melhor, Ashley passa para um relacionamento tóxico com Austin que, paralelamente, busca se vender como uma pessoa evoluída enquanto colhe os benefícios do trabalho sujo que Ashley executa.

Paralelamente, Josh e Lindsay são o outro lado dessa equação. Um relacionamento que já se perdeu há muito tempo por problemas que ultrapassam apenas a questão financeira, os dois são a parte mais profunda e bem desenvolvida desse segundo ano. Lindsay certamente é a personagem que mais sofre, mas é muito provável que poucos darão a ela o título de injustiçada nessa situação toda.
Com temas reais que perpassam situações complexas, Beef acaba perdendo um pouco de fôlego quando sua trama foge das relações e passa para algo mais absurdo e que flerta com a ação. Não quer dizer que a finalização seja ruim, mas a produção cresce mais quando está olhando para o humano.
É o caso do segmento focado em Burberry, o cachorrinho de Josh e Lindsay, ou todo o episódio quatro que se passa quase inteiramente no hospital. São esses momentos mais íntimos e que exploram a personalidade, sentimentos e resiliência dos personagens que realmente tornam Beef em uma produção especial.
As resoluções finais, no entanto, são uma surpresa positiva. Mostram que nós, como humanos, repetimos padrões mesmo que sem percebermos e buscamos no lugar comum aquilo que pode nos trazer algum sentido. Um grande ciclo que se fecha de maneira coerente e garante para a produção um segundo ano sólido e interessante.
É até curioso colocar como a série explora os personagens tão bem em um determinado recorte de tempo, mas se sentir absolutamente fascinado ao descobrir vários pequenos detalhes sobre eles durante um episódio final. Lee Sung Jin merece todos os créditos por mais um desenvolvimento de temporada inteligente e inesperado.
Veredito
Uma boa continuação para um primeiro ano esplêndido, Beef tem novamente em seu estudo de personagens o fator determinante para o seu sucesso. Ao se aprofundar na desigualdade e em um sistema que continua nos tornando mais pobres e frágeis, a produção ruma para uma abordagem diferente do que sua temporada de estreia, encontrando um ótimo resultado.
4 / 5
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