Poucas produções de super-heróis entendem o peso psicológico da violência como Invencível, série animada do Prime Video. Em sua quarta temporada, a história dá um passo além narrativamente, aprofundando os conflitos psicológicos dos personagens, que precisam lidar com dilemas difíceis enquanto enfrentam a crescente ameaça viltrumita.
Durante as primeiras temporadas, acompanhamos a evolução de Mark Grayson (Steven Yeun) tornando-se herói, desde a descoberta de seus poderes até a compreensão de que a Terra é apenas um pontinho em um vasto universo habitado por seres de outros planetas e, claro, multiversos. Assim, o mundo de Mark tornou-se gigante, mas seu principal objetivo sempre foi defender sua terra natal e aqueles a quem ama. Se no começo era fácil para o herói assimilar o bem e o mal, o certo e o errado, agora, depois de batalhas mortais e de conhecer melhor sua origem, Mark começa a duvidar se de fato é uma boa pessoa.
A incerteza que assola o jovem herói cresce à medida que a temporada resgata alguns arcos narrativos apresentados anteriormente, que agora recebem sua devida atenção. Em especial, o império viltrumita ganha maiores contornos com a introdução do General Thragg (Lee Pace), o último líder de sua espécie. O personagem pretende travar uma guerra até a morte para garantir a supremacia de seu povo sobre o universo. Ao levar seus maiores acontecimentos para o espaço, a série amplia ainda mais a escala da narrativa, mostrando que o conflito pode surgir em qualquer lugar. Nesse cenário, Mark se torna uma das únicas forças capazes de enfrentar os viltrumitas.
O ritmo da temporada eleva o nível da série. Em vez da estrutura de “vilão da semana”, Invencível adota um arco mais intenso, marcado por uma constante sensação de inevitabilidade. Depois de passar um tempo no inferno ao lado do detetive paranormal Damien Darkblood (Clancy Brown), Nolan (J.K. Simmons) retorna para convocar Mark para uma guerra que ainda parece distante, mas que, inevitavelmente, faz parte de sua história. E, diga-se de passagem, é impressionante como Invencível consegue abrir histórias para concluí-las muito tempo depois sem que elas pareçam esquecidas no caminho.
Um dos pontos fortes de Invencível sempre foi a complexidade de seus personagens, heróis e vilões que, muitas vezes movidos pelo acaso, são profundamente falhos e cheios de arrependimentos. Esse sentimento de pesar atravessa a série inteira, tornando cada escolha de Mark extremamente difícil, desde deixar Eve para trás até sua decisão final no clímax da temporada. Com tamanha responsabilidade, começamos a enxergar os danos psicológicos do herói; suas batalhas deixam de ser apenas físicas e passam a ser também morais e éticas. É difícil saber o que esperar de Mark nas próximas temporadas, já que sua bússola moral começa lentamente a mudar, tornando incerto o que ele poderá se tornar no futuro.
A volta de Nolan reacende a relação entre pai e filho. Se, por um lado, Mark parece estar se tornando cada vez mais parecido com o viltrumita, por outro, Nolan inicia um longo caminho de redenção. Desde sua conversa com Debbie (Sandra Oh) até o tempo que passa com Oliver (Christian Convery), o personagem demonstra um desejo genuíno de reparar seus erros. Ainda assim, é difícil confiar completamente em suas intenções; afinal, esse é o mesmo homem que dizimou uma cidade inteira sem hesitar, e a série nunca nos deixa esquecer isso.
A temporada também apresenta Eve (Gillian Jacobs) de forma mais vulnerável. Seus poderes sempre foram uma parte essencial de sua identidade e, quando ela começa a perdê-los, precisa recalcular completamente sua trajetória. Ainda assim, ao contrário de Mark, Eve parece emocionalmente mais forte, especialmente diante das decisões difíceis que precisa tomar após passar por situações extremamente traumáticas. Outro personagem que merece destaque é Allen, o Alienígena (Seth Rogen). Presente desde as primeiras temporadas, ele ganha maior importância aqui ao se tornar um dos principais combatentes contra o império viltrumita.
Se narrativamente Invencível está construindo uma das histórias mais emblemáticas do universo dos super-heróis, por outro lado ainda existe o problema da animação. A série não possui o melhor estilo visual ou qualidade técnica nesse quesito, o que se torna bastante problemático quando falamos de um dos estúdios mais poderosos do entretenimento. Muitas cenas são estáticas, tornando o movimento dos personagens o mínimo possível para economizar recursos. Falta fluidez, impacto visual e maior densidade à animação. A impressão que fica é a de uma troca: enquanto a série reúne um elenco de voz extremamente estrelado, com nomes como Steven Yeun, J.K. Simmons, Sandra Oh, Gillian Jacobs e Seth Rogen, o aspecto visual parece constantemente negligenciado. Quanto mais a série deixa seu quadro artístico em segundo plano, mais difícil se torna para Invencível quebrar alguns paradigmas dentro da animação adulta
Veredito
A quarta temporada de Invencível é ainda mais ambiciosa e emocionalmente intensa que suas antecessoras. Mark passa por um momento delicado, no qual começa a questionar seu papel como herói enquanto tenta lidar com seus próprios traumas. A ameaça viltrumita cada vez mais próxima é o grande triunfo da temporada, preparando o terreno para aquele que pode ser o momento mais devastador da série.
4,0/5,0
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