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    CRÍTICA – Sonhos de Trem é uma obra poética e cheia de significados

    Um homem comum vivendo nos Estados Unidos do início do século XX, período em que o chamado sonho americano era construído sobre os trilhos das ferrovias. É assim que Robert Grainier (Joel Edgerton) surge em Sonhos de Trem (Train Dreams): roupas de lenhador, machado na mão, barba espessa e um olhar meio perdido. A narração em off conduz a jornada do protagonista em um filme cheio de melancolia, mas também de beleza.

    O próprio título já sugere um certo rompimento com a realidade, mas também uma entrada no universo interior de Grainier. Ele passa meses longe de casa, cortando madeira e cravando trilhos no chão. O trabalho entre homens é quase sempre monótono, com poucas palavras e apenas o som da natureza ao redor. Para Grainier, esse isolamento parece natural. Ainda assim, o filme nunca revela completamente o que se passa em sua mente.

    Calado e mais observador, o personagem oferece um dos papéis mais notáveis da carreira de Joel Edgerton (Matéria Escura). Quem preenche parte desse silêncio é a narração em off de Will Patton. É essa voz que revela fragmentos da vida de Grainier, desde seu trabalho, os companheiros de jornada e os poucos vínculos que estabelece.

    À primeira vista, Sonhos de Trem parece um filme um tanto lírico. Somos convidados a adentrar esse mundo de forma poética, mas, à medida que o longa avança, fica evidente o quanto ele também carrega da realidade. Essa dicotomia se dá pelo belíssimo trabalho de fotografia do brasileiro Adolpho Veloso que, por meio de enquadramentos e ângulos cuidadosos, cria uma sensação de lembrança sem deixar de lado a brutalidade do momento. É, sem dúvida, o elemento visual mais marcante. Somado à direção de Clint Bentley, o resultado é um filme intenso, quase memorialístico.

    Do mesmo modo, o roteiro de Bentley, em parceria com o corroteirista Greg Kwedar (Sing Sing), constrói uma história cheia de camadas, com personagens que entram e saem de cena à medida que o protagonista avança pela idade. A atriz Felicity Jones (O Brutalista) surge como Gladys, a mulher com quem Grainier se casa e forma uma família. É para ela que ele retorna ao fim de cada temporada na floresta, até que uma tragédia alcança a família. Gladys muitas vezes parece quase uma lembrança idealizada, como se também fosse parte dos “sonhos” de Grainier.

    Outro personagem que ganha destaque é Arn, interpretado pelo sempre fenomenal William H. Macy (Fargo: Uma Comédia de Erros). São cenas curtas, mas que trazem um senso de filosofia de vida que afeta tanto Grainier, quanto o público. A forma como o filme simplesmente permite que seus personagens existam, sem muitos melindres, é justamente o que transforma Sonhos de Trem em uma obra profundamente poética, sem escorregar para o excesso ou para o sentimentalismo fácil.

    É difícil elaborar tudo o que esse filme representa, pois assisti-lo, por si só, já é uma experiência completa. A trilha sonora de Bryce Dessner (O Regresso) acompanha essa jornada sobre a insignificância da vida, mostrando como viver pode ser apenas sobreviver, mas também se apaixonar, sofrer e se maravilhar com o que o mundo ainda tem a oferecer, mesmo que por um breve instante.

    Veredito

    Sonhos de Trem acompanha a vida do lenhador Robert Grainier em uma das atuações mais potentes de Joel Edgerton. Com fotografia do brasileiro Adolpho Veloso, o filme aborda a existência de forma poética e melancólica, sem nunca fugir da dureza da realidade. É uma obra profunda que reflete sobre trabalho, família e o simples ato de existir.

    Nossa nota

    5 / 5

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