CRÍTICA – Hacks se consolida como a melhor comédia da década

Hacks se encerrou em sua quinta temporada que já está disponível no catálogo do HBO Max. A série conta com Jean Smart e Hannah Einbinder como protagonistas.

É engraçado como numa imensidão de produções medianas que fazem sucesso, alguns projetos únicos se transformam em pepitas de ouro. Hacks é um sucesso nos Estados Unidos e, infelizmente, não pegou no Brasil como deveria.

O que faz este show ser tão diferente a ponto de merecer uma chance? Primeiramente, o final é quase perfeito, tanto que independentemente dos caminhos escolhidos, a história se conclui de um jeito poético e extremamente satisfatório.

O roteiro do último ano é um primor técnico mesmo em sua simplicidade. A premissa é a seguinte: Deborah Vance (Jean Smart) está impedida de voltar aos palcos por conta de um contrato amarrado com a emissora do seu Late Night Show que se encerrou de forma drástica após seu desabafo ao vivo. Agora, ela precisa da ajuda de sua equipe para lotar o Madison Square Garden em sua última grande apresentação de comédia após o encerramento dessa punição.

A série consegue ir do ponto A ao B com facilidade e um subtexto poderoso, mesmo que os objetivos dos episódios sejam bastante simples como, por exemplo, conseguir um vestido, participar de um evento ou até de um reality show de gincanas. Por mais bobas que pareçam as ideias, o brilho está no recheio de cada capítulo, seja abordando o abandono de Vance que não escutava mais seus fãs, seja pela aprovação de seu ex-marido que mesmo após falecer continua sendo um gigantesco obstáculo emocional.

Para que isso tudo funcione, é necessário que o elenco esteja completamente afiado, e isto ocorre com maestria, mais uma vez. Jean Smart é um fenômeno da natureza. Por trás de todo o sarcasmo e de uma casca grossa que exala arrogância, há uma mulher que foi silenciada, humilhada e que nunca pôde confiar em ninguém, trabalhando sozinha e tendo que arrombar portas para conseguir chegar ao topo.

Deborah não é uma donzela em perigo, tampouco uma mulher durona que aguenta tudo nos ombros. Na verdade, ela é extremamente humana, mas com um talento monstruoso para mover mundos e fundos. A sua complexidade emocional e timing cômico impecável são incorporados por Smart que deve levar tudo novamente nas premiações por mais uma temporada perfeita como a protagonista de Hacks.

Hannah Einbinder é outro talento nato como atriz e comediante. Ava precisa se provar, consolidando sua habilidade como roteirista em voos solo. Sua forma de fazer comédia consiste em um texto rápido e na fisicalidade, uma vez que a personagem é desengonçada e elétrica, com muitos sonhos e idealismo. A participação dela é a chave para que temas atuais como a precarização da carreira de escritores e roteiristas por conta do uso de inteligência artificial, a banalização e desumanização de profissionais do sexo e outros tabus como relacionamentos poligâmicos serem pauta de uma forma descontraída e leve.

Para fechar, ainda temos o arco de Jimmy e Kayla (Paul W. Downs e Megan Stalter) que estão na pior e devem se provar como grandes profissionais de uma indústria que está em decadência: a de representação de artistas.

A temporada final de Hacks é sobre se provar em meio a cenários desfavoráveis. Deborah tem as suas amarras contratuais, Jimmy e Kayla um nome a zelar em um mercado concorrido e Ava tem que se consolidar, tudo isso acontecendo de forma magistral.

O fechamento consegue ser emocionante e gerar momentos maravilhosos. A conexão entre Ava e Deborah é quase que mental, é impressionante como as duas atrizes encaixaram bem em seus papéis e como a química delas em cena é contagiante. Elas se completam com este choque geracional delicioso que tem uma evolução necessária, onde há um aprendizado mútuo. Jimmy, Kayla e Randi (Robby Hoffman) também são ótimos juntos, gerando boas risadas.

Veredito

Hacks termina de forma emocionante e extremamente hilária, sabendo encerrar com maestria uma jornada cheia de dor, sofrimento, choques geracionais e muito amor envolvido entre pessoas que lutaram bastante pelo seu espaço, criando laços profundos sempre com um texto afiado.

Com um roteiro redondinho e cheio de sarcasmo, o projeto se consolida como um dos melhores da década, quiçá, dos últimos 20 anos da televisão/streaming.

Nossa nota

4,5/5,0

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Assista ao trailer:

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