O elemento que melhor descreve o impacto do filme original de Da Magia à Sedução é, certamente, a irmandade entre as personagens principais. As irmãs Sally (Sandra Bullock) e Gillian Owens (Nicole Kidman), apesar de todas as diferenças inerentes às suas personalidades, tinham uma ligação tão forte que fazia você acreditar no amor sincero e inquebrável entre as duas.
E essa ligação fazia com que Sally embarcasse em situações difíceis para apoiar Gillian, ao mesmo tempo em que ambas se viam na obrigação de lutar contra uma maldição que atravessava gerações. A irmandade, muito bem explorada na ideia do Coven e da bruxaria por si só, tornou esse filme em um ícone dos anos 1990, com grande representação feminina.
A sequência, no entanto, falha em estabelecer exatamente o elemento que fez desse primeiro filme tão especial para muitas pessoas. Isso não significa que o antecessor era perfeito, o que claramente não era, mas tinha cor e personalidade, algo que o segundo não consegue alcançar.
Há também a importância de ver filmes sobre mulheres e para mulheres ganhando a tela. Na época, Da Magia à Sedução foi um ótimo exemplo de produção que, apesar de explorar elementos sobrenaturais, tratava também de sentimentos reais relacionados a essas duas personagens. Até seu encerramento é ancorado na conexão entre as várias mulheres que fazem parte dessa história.
Em Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor, no entanto, a estrutura não se mantém. Na história, devido aos acontecimentos da vida de Sally, ela acaba negando o seu poder e criando as duas filhas afastadas da magia. Elas não sabem sobre a maldição, tampouco entendem que vêm de uma família de bruxas.
Essa decisão, claro, acaba ganhando contornos trágicos. Ao não saber sobre sua realidade, Kylie (Joey King) declara seu amor a Gideon (Xolo Maridueña), o que leva o jovem a sofrer um grave acidente. Sem saber o que fazer, a garota é atraída por um livro das trevas que pode conter a cura para a maldição.
As irmãs Owens, então, precisam se unir para salvar Kylie, o que coloca as duas em uma missão rumo a outro país e as aproxima de Ian Wright (Lee Pace), um bruxão diferenciado e grande conhecedor da arte das trevas.

O grande problema no roteiro de Da Magia à Sedução 2 é, além da fragmentação de sua história em diversos núcleos, a falta de conexão entre as irmãs Owens. Seja porque Sally e Gillian não possuem a mesma dinâmica do primeiro filme e parecem ter que competir pelo tempo de tela, ou por causa de todo o arco de Kylie.
Kylie tem uma irmã, Antonia (Maisie Williams) e, apesar de ambas as atrizes terem feito uma grande divulgação do filme e sobre como se conectaram com suas personagens, Antonia passa mais da metade da produção presa em um único quarto. Não há, entre as duas, quase nenhuma construção, tampouco Antonia é usada como parte importante da história.
Acredito que isso seja uma grande oportunidade perdida porque, mesmo que a estrutura refletisse em partes o que vimos anteriormente, faria mais sentido do que manter uma delas completamente alheia aos acontecimentos centrais da trama.
Se no primeiro filme o sangue do meu sangue era o tema principal, e como essa conexão fazia grande diferença nos desafios que as duas irmãs enfrentavam, aqui Gillian e Sally parecem em frequências completamente opostas. Apesar disso, Nicole Kidman e Sandra Bullock são sempre perfeitas juntas, o que acaba mascarando um pouco a falta de fluidez da história.
Se tem algo que não se perdeu ao longo do tempo é o humor que as duas conseguem entregar para essas personagens. Nicole está ainda mais radiante como Gillian, sendo o grande alívio cômico, enquanto Sandra é engraçada de forma totalmente espontânea. É perceptível o quão fácil foi para elas retornarem a esse mundo e as duas acabam sendo o grande ponto positivo dessa história toda.
Mas, vale dizer, as cenas que melhor descrevem o sentimento de companheirismo do Coven ficaram nas mãos das veteranas Dianne West e Stockard Channing. Franny e Jet dividem momentos íntimos em que um olhar e um sorriso dizem tudo, uma condução fofa e muito bonita para duas atrizes tão importantes nessa franquia.
Penso que o que falta principalmente nesse novo capítulo é a sedução. E digo isso focando apenas na forma como esse universo nos seduziu e encantou no passado, mas que aqui não consegue chegar ao mesmo resultado.
Veredito
Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor falha ao estabelecer um novo capítulo interessante para a história das irmãs Owens. Ao focar em uma trama simples, que prioriza a magia e esquece o elemento da irmandade que foi um diferencial no primeiro longa, a produção coleciona oportunidades perdidas mesmo com um elenco tão incrível. Apesar disso, Sandra Bullock e Nicole Kidman seguem incríveis como as personagens principais, entregando bons momentos cômicos juntas.
3,5 / 5,0
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