O sucesso da animação Avatar: A Lenda de Aang da Nickelodeon entre 2005 e 2008 mostrou como uma obra pensada primeiramente para o público infantil pode se tornar um belo exemplo de narrativa profunda: tratando de traumas, deveres e amizade de uma maneira divertida, mas também madura.
A história sobre um menino de 12 anos que tem o dever de restabelecer a ordem do seu mundo após permanecer 100 anos desaparecido encantou milhares de jovens, que por muito tempo desejaram ver mais desse universo.
Depois de anos com alguns lançamentos em outros formatos, mais focados nos quadrinhos, e, mais recentemente, um live-action que, diga-se de passagem, é empolgante, mas não expressa o que de fato é Avatar, chega, pela Paramount, com o selo Avatar Studios, o filme de animação Avatar Aang: O Último Mestre do Ar. A história acompanha o último dominador de ar vinte anos após os acontecimentos da série, em um momento conturbado no qual Aang sente cada vez mais o peso de ser o último de sua nação.
Se as séries sempre estiveram mais focadas na construção de seus protagonistas para se tornarem o próximo Avatar, o filme animado busca desenvolver Aang (Eric Nam). Existe uma certa filosofia existencial ao longo de sua jornada: como o último dominador de ar, ele precisa manter viva a tradição de seu povo, mas como fazer isso se não existe ninguém além dele? É uma batalha cruel que recai sobre Aang, ainda mais com todos dependendo e exigindo tanto do Avatar.
Com a Cidade República construída e Aang levando a paz às quatro nações dos elementos, ele finalmente consegue a oportunidade de revisitar seu passado. É em uma de suas excursões ao Templo do Ar que Aang encontra um grupo terrorista não dobrador chamado Os Renegados, que está em busca de um bastão capaz de conceder habilidades de dobra a não dobradores.
Para o Avatar, porém, o artefato representa mais do que poder: talvez seja a única esperança de preservar o legado de sua nação. Para isso, ele reúne novamente o Time Avatar. Katara (Jessica Matten), Sokka (Román Zaragoza), Toph (Dionne Quan) e o Senhor do Fogo Zuko (Steven Yeun) partem em busca do bastão.
Apesar de o Time Avatar estar de volta, é inegável que o filme não consegue, e também não tem tempo suficiente, para desenvolver todos os personagens. Katara ganha mais destaque, mostrando-se um apoio para Aang nos momentos mais árduos, mas dificilmente a vemos, ou qualquer outro personagem, conquistando espaço na narrativa.
Incomoda também que Sokka esteja relegado ao alívio cômico do grupo. Sabemos que essa é sua personalidade, mas o não dobrador já se provou um exímio estrategista e um grande guerreiro. Toph e Zuko têm ainda menos momentos. Além das cenas de luta, que estão belíssimas, falta desenvolvimento narrativo para ambos.
Em contraste, quando Aang e sua equipe encontram Tagah (Dave Bautista), um poderoso dominador de ar que foi congelado, assim como Aang, chega o momento de o Avatar compreender melhor sua cultura, há tanto tempo perdida, e talvez imaginar um futuro para ela.
Essa dualidade entre presente e passado é o que torna Avatar tão emblemático. Os cocriadores Bryan Konietzko e Michael Dante DiMartino exploram personagens criados em meio à guerra, mas que seguiram caminhos totalmente diferentes. Enquanto Tagah decide pelo extremismo, Aang surge mais uma vez como um mediador de conflitos que rejeita a violência como solução, mostrando a possibilidade de um mundo melhor.
Os cocriadores dividem os créditos de Avatar Aang com Kenneth Lin e o co-roteirista Tim Hedrick. Nesse sentido, são perceptíveis algumas mudanças de estrutura. O texto, principalmente, sofre com algumas exposições desnecessárias e momentos de humor que, por vezes, parecem deslocados, expressando uma sutil tentativa de criar uma narrativa contemporânea que dialogue com um público mais jovem.
Por outro lado, a animação 2D é um dos grandes atrativos do filme. Desde o começo da franquia, Avatar buscou inspiração na cultura asiática. O estilo, levemente inspirado nos animes, retorna nesta produção, reforçando que, de fato, Avatar funciona incrivelmente melhor no formato de animação. Do mesmo modo, o trabalho de dublagem também chama atenção. Agora, com atores refletindo corretamente a etnia dos personagens, Eric Nam consegue transmitir o conflito emocional de Aang.
Avatar Aang é, sem dúvida, o que todo fã desse universo queria. Ainda que em um filme de apenas uma hora e meia, é satisfatório assistir mais uma vez esses personagens tão queridos.
É uma pena que a Paramount tenha deixado o filme apenas para o streaming, perdendo a chance de lançá-lo nos cinemas. É óbvio que essa decisão também sofre os reflexos da polêmica envolvendo o vazamento do filme meses antes do lançamento. Ainda assim, Avatar se mantém como uma das franquias de animação mais bem-sucedidas das últimas décadas, e Aang certamente é apenas o começo de uma nova expansão desse universo.
Veredito
Avatar Aang: O Último Mestre do Ar é a animação das histórias do Time Avatar com a qual os fãs vêm sonhando há anos. Com uma animação belíssima, a narrativa explora os conflitos internos de Aang enquanto acompanha sua tentativa de preservar o legado de sua nação. Ainda que nem todos os personagens encontrem espaço para se desenvolver, o filme cumpre o papel de reunir o Time Avatar em mais uma aventura, ao mesmo tempo em que reforça o peso e a responsabilidade de ser o Avatar.
3,8 / 5,0
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Confira o trailer:
