CRÍTICA – A Odisseia: Christopher Nolan entrega épico fantástico envolvente e humano

A Odisseia é uma das histórias mais conhecidas no mundo todo, tendo influenciado obras em diferentes mídias ao longo de gerações. Uma jornada épica ancorada no fator humano, mas que conta com deuses, ciclopes, sereias e outras criaturas fantásticas, o poema de Homero apresenta a luta de Odisseu para retornar ao seu reino e sua família.

Adaptar um material tão importante não é tarefa fácil, e Christopher Nolan é provavelmente um dos poucos nomes que conseguiria criar uma adaptação visualmente estonteante como essa. A Odisseia de Nolan é um deleite visual, e é perceptível como todos os seus filmes até então foram um preparativo para o quão grandioso esse projeto seria.

Ao mesmo tempo que sabemos que Nolan tem o que é necessário para fazer uma adaptação coerente e especial de uma história como essa, é fato que o lado fantástico e celestial em nada se conecta com as escolhas de sua cinebiografia. Portanto, era de se esperar que ele optasse por um tom mais realista, que se aplica desde a caracterização até a forma como os deuses são inseridos ao longo das 2 horas e 52 minutos de duração.

Apesar das mudanças em relação ao material base, o cineasta opta por manter a ideia de não apresentar uma narrativa linear: começamos entendendo a realidade no reino de Ítaca para depois encontrarmos Odisseu e acompanharmos todo o seu sofrimento.

Na história, Odisseu (Matt Damon) está longe do seu reino há 20 anos. Seu filho, Telêmaco (Tom Holland), é muito jovem para governar em seu lugar, o que torna a rainha Penélope (Anne Hathaway) refém de seus pretendentes, que usam a lei de Zeus para invadir o seu castelo e consumir todas as suas provisões.

Todas as noites, o salão do palácio fica lotado de homens grosseiros e sem educação, que aguardam ansiosos para que a rainha escolha o seu novo marido. Ao mesmo tempo, provocam Telêmaco para que ele perca o controle e haja motivo para atacá-lo.

Em meio a esse impasse, Telêmaco decide que precisa saber o que aconteceu com seu pai, o que o leva a sua própria jornada. Paralelamente, passamos a acompanhar a realidade de Odisseu e suas memórias sobre a jornada fantástica em busca de Ítaca.

Boa parte da premissa é a mesma da história amplamente conhecida, mas é fato que há uma ressignificação em relação aos deuses e sua importância em meio a essa história. Zendaya, que dá vida à deusa Athena, tem uma boa inserção nos acontecimentos, mas longe de igualar à sua importância no conto original.

O grande trunfo está no ótimo uso de Matt Damon e no desenrolar da jornada de Odisseu em todas as suas pequenas paradas após a queda de Troia, que só foi possível devido à sua própria artimanha. Nolan tem um estilo próprio para apresentar esses flashbacks, sempre ancorados na trilha de Ludwig Göransson, que apesar de muito boa, me pareceu um pouco apagada em alguns momentos. 

CRÍTICA - A Odisseia: Christopher Nolan entrega épico fantástico envolvente e humano
Créditos: Divulgação / Universal

Odisseu tem um desenvolvimento sólido, tal qual todos os protagonistas masculinos dos filmes de Nolan, e a atuação de Damon é talvez uma das melhores de sua carreira. Uma interação específica do ator com Samantha Morton, que dá vida a Circe, é uma das minhas favoritas do filme, principalmente por ser um momento um tanto fantástico demais para o que estamos acostumados do diretor.

Zendaya, Tom Holland e Anne Hathaway estão excelentes em cena, assim como Robert Pattinson, Charlize Theron e John Leguizamo. Da mesma forma que a caracterização de Antínoo não me agradou muito, com um Robert Pattinson mais vilanizado e por vezes perturbado demais, o Eumeu de Leguizamo foi um personagem que me surpreendeu positivamente, guardando os momentos mais emocionais e, por vezes, importantes da trama.

Elliot Page e seu Sinon também possuem um tempo de tela interessante e bem explorado, ao passo que a Helena de Lupita Nyong’o, o Agamemnon de Benny Safdie e o Menelau de Jon Bernthal têm participações pontuais.

Num geral, é um elenco incrível e muito equilibrado em suas atuações. Todo estão muito bem, mas é fato que o grande desenvolvimento fica ancorado invariavelmente entre Odisseu e Telêmaco. Isso acaba sendo uma pena para a Penélope de Anne, que não possui tanto protagonismo como poderia, nem muito desenvolvimento quanto gostaríamos.

Quando falamos das cenas de ação, não há dúvidas que houve um grande empenho nesse sentido. Tudo é grandioso, mesmo em momentos em que o diretor optou por filmar os seus soldados com certa proximidade. A câmera acompanha cada movimento de batalha, quase como se fizesse parte da luta, o que garante sequências arrebatadoras, principalmente no IMAX.

E talvez a técnica seja o que mais se destaca, no fim das contas, o que acaba sendo também o seu calcanhar de Aquiles. Ao não se aprofundar muito no que torna uma tragédia grega com deuses em algo tão fascinante e emocional, A Odisseia por vezes perde a chance de criar um conexão maior com o público. Quando tudo é racionalmente explicado e conduzido, uma parte do encanto se perde e por mais que tudo seja bonito e bem feito, acaba ficando a sensação de que falta algo.

Entretanto, a execução é exímia e, sem dúvidas, entra no hall de melhores filmes da carreira de Christopher Nolan. É um épico moderno belíssimo e que vai colocar o diretor no caminho de mais alguns prêmios.

Veredito

Adaptar um clássico atemporal e amplamente referenciado não é tarefa fácil. Christopher Nolan, um dos maiores cineastas da atualidade, entrega um trabalho tecnicamente estonteante, com excelentes cenas de ação e escolhas narrativas que muito se assemelham à identidade de seus filmes num geral. Se essa é a adaptação definitiva do poema de Homero, podemos dizer que é um bom resultado, que conta com um excelente elenco e uma direção confiante de Nolan.

Nossa nota

4 / 5

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