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    CRÍTICA – Hamnet: quando a arte e a sensibilidade criam uma experiência única

    Alguns filmes marcam nossa vida de maneiras distintas, seja por nos encontrarem em um momento em que precisávamos daquela determinada história, ou por simplesmente criarem uma experiência que chega a ser difícil colocar em palavras. Hamnet, novo longa da diretora Chloé Zhao adaptado do romance homônimo de Maggie O’Farrell, é certamente um desses casos em que um filme consegue envelopar arte e sensibilidade de maneira tão profunda que se torna algo único.

    Previsto para estrear no Brasil em 15 de janeiro, a produção conta com Chloé e Maggie no roteiro e traz em seu elenco principal Jessie Buckley e Paul Mescal. A história busca apresentar os acontecimentos que levaram a união de Agnes (Jessie Buckley) e Shakespeare (Paul Mescal), e a motivação para a criação da famosa peça Hamlet.

    Mas mais do que uma história sobre o famoso escritor, essa é realmente uma trama sobre Agnes. Sua origem, seus sonhos, sua conexão com a natureza e as pessoas. Seja pelo impacto das belezas do cenário ou pela ternura como os acontecimentos são contados, é fato que Hamnet consegue encantar em cada pequeno segmento.

    A complexidade com que Agnes é apresentada em tela é a de um ser humano real, que causa proximidade, conexão e apego. Vivemos todas as fases do relacionamento entre a personagem e Shakespeare, desde sua paixão, o apoio incondicional, o nascimento dos filhos e seu desfecho.

    E a trama fica ainda mais significativa quando Hamnet (Noah Jupe) se torna fio condutor para a existência de Agnes para além da mulher, na figura de mãe. Noah Jupe é um acontecimento em tela, e Chloé consegue extrair algo tão raro quanto encantador em uma cena muito específica envolvendo o ator mirim. Um daqueles alinhamentos perfeitos entre direção e atuação.

    E nesse ponto, Chloé mostra mais uma vez por que é uma das grandes diretoras de sua geração. Seu trabalho ao lado de Jessie Buckley e Paul Mescal é de uma delicadeza e gentileza perceptíveis a cada momento. Jessie está em um dos melhores papéis de sua carreira e sabe aproveitar a oportunidade para entregar exatamente o que se espera de um filme como esse. 

    Sua atuação é gigante, precisa e devastadora. Muitos realizadores tentam criar conexões com o público que sejam tão tocantes quanto a que Hamnet desempenha entre sua personagem principal e audiência, e tudo graças ao olhar terno e a entrega completa feita por Jessie. Para além dos diálogos, a produção se ancora em acontecimentos e em sentimentos, conduzidos pela ótima trilha sonora de Max Richter.

    E o mesmo podemos dizer de Paul Mescal. Narrativas intimistas e profundamente pessoais são as que mais conseguem extrair momentos genuinamente sensíveis de sua atuação, e Hamnet é um grande e legítimo palco nesse sentido. A combinação desses dois atores principais não poderia ser mais acertada, tornando essa uma das melhores experiências cinematográficas dos últimos anos.

    Vincular Hamnet a adjetivos como sensível e encantador é algo quase inevitável, pois desde a excelente fotografia de Lukasz Zal, até os figurinos de Malgosia Turzanska, tudo ecoa essa aura de encantamento e dor, quase na mesma proporção. É como se Chloe tivesse viajado a uma outra era para criar um storytelling que poucos conseguiriam condensar em um filme de duas horas e cinco minutos.

    Ela também merece todos os elogios pela excelente montagem, crédito que divide com Affonso Gonçalves, brasileiro responsável pela edição de outros grandes filmes como o vencedor do Oscar Ainda Estou Aqui.

    CRÍTICA - Hamnet: quando a arte e a sensibilidade criam uma experiência única
    Créditos: Divulgação / Universal Pictures

    Seu encerramento poderia cair para o mais clichê possível de maneira segura, mas faz o caminho completamente oposto ao unir elementos amplamente conhecidos da clássica peça de Shakespeare com os acontecimentos que permeiam a vida dessas figuras. Uma combinação belíssima e que atravessa emocionalmente.

    Hamnet se tornará, em alguns anos, um daqueles títulos considerados pequenas joias e que os fãs têm carinho em apresentar para outras pessoas. Uma análise ampla do feminino, da nossa conexão profunda com a natureza e a vida, além da devastação que o luto pode causar para além da perda. 

    Veredito

    Hamnet consegue encontrar seu próprio espaço no cinema moderno com uma proposta que transcende sua obra, se destacando como uma experiência realmente impactante. Ao equilibrar o romance, a jornada pelo luto e um final profundamente poético, a produção de Chloé Zhao é impecável do início ao fim.

    Nossa nota

    5 / 5 

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    Assista ao trailer:

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