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    CRÍTICA – 5ª temporada de Stranger Things tem episódio final agridoce e protegido em plástico bolha

    A 5ª temporada de Stranger Things chegou ao fim na noite de ano novo, selando o destino dos personagens que acompanhamos ao longo de quase uma década. Com mais de duas horas de duração, o episódio final trouxe um misto de explicações e confusões em uma conclusão tão protegida que parece envolta em plástico bolha: sem riscos, sem invenções, apenas uma volta às origens.

    Iniciamos o capítulo exatamente onde o volume 2 parou. Uma nova missão para impedir que a Dimensão X colida com a Terra, com nossos heróis indo física e telepaticamente derrotar Vecna (Jamie Campbell Bower) em seu esconderijo sombrio.

    O plano apresentado por Steve (Joe Keery) no penúltimo episódio era um tanto simples: subir na torre de rádio no Mundo Invertido e aguardar a Dimensão X estar próxima o suficiente para eles conseguirem atravessar. 

    Paralelamente, Eleven (Millie Bobby Brown), Hopper (David Harbour), Kali (Linnea Berthelsen) e Murray (Brett Gelman) se posicionaram no Laboratório de Hawkings para conectar El a Vecna, levando consigo Kali e Max (Sadie Sink), sendo essa última a responsável por guiar as duas irmãs pelas memórias do vilão.

    A empreitada pela mente de Henry tinha dois objetivos: parar a descida da Dimensão X rumo à Terra e mostrar para as crianças a verdade do que estava acontecendo, a fim de salvar todas elas e garantir um retorno aos seus corpos. Com o desacelerar da colisão, o grupo que estava na Terra seria capaz de chegar até o esconderijo e colocar um fim em tudo, de uma vez por todas.

    Além de todos esses personagens, Erica (Priah Ferguson) e Mr. Clarke (Randy Havens) ficaram responsáveis por monitorar os militares na praça principal, enquanto Vickie (Amybeth McNulty) recebeu a missão de cuidar de Max durante o seu passeio na mente de Henry.

    Tudo parecia ok, até que Dr. Kay (Linda Hamilton) decide não seguir o grupo até o Mundo Invertido e sim buscar o restante da galera no mundo real, quebrando essa organização deles aos poucos e recolhendo informações necessárias para que ela consiga capturar Eleven. No Mundo Invertido, um dos capangas de Kay segue a garota, criando uma emboscada.

    E, bom, daqui pra frente temos o desenrolar da missão e todos os acontecimentos em cadeia que tornam o encerramento um tanto difícil de explicar completamente. Afinal, muitas das decisões ou não se sustentam, ou não fazem muito sentido, principalmente no que diz respeito a Vecna e Mind Flayer.

    CRÍTICA - Stranger Things tem final agridoce e protegido em plástico bolha
    Créditos: Divulgação / Netflix

    Os criadores já disseram que o spin-off Tales vai elucidar alguns pequenos detalhes que ficaram em aberto sobre essa parte da história, mas sinceramente se você precisa assistir a mais uma produção para que a explicação se torne completa, é porque ela sozinha não conseguiu cumprir o esperado. 

    O que vemos é um segmento que muito destoa do que é Stranger Things. Hawkins sempre foi peça importante no desenrolar de todas as situações, e o fato do Mundo Invertido estar sempre “tentando” invadir a cidade antecipava que, em algum momento, isso realmente iria acontecer. Boa parte da graça da série está em torcer para que os heróis conseguissem salvar não só a si próprios, mas também aquele pequeno lugar onde a população parece completamente alienada dos reais eventos sobrenaturais que acontecem diariamente.

    Ao levar o grupo para uma dimensão completamente vazia, sem nenhuma outra ameaça além de Vecna e o Mind Flayer, a “grande escala” não parece tão grande assim. O grupo consegue derrotar um monstro em minutos, finalizando o gran finale com Joyce (Winona Ryder) acabando com Vecna na base da machadada.

    E o mesmo acontece com o arco de Henry e das crianças. Holly (Nell Fisher) e Derek (Jake Connelly) acabam se virando para derrotar o vilão sozinhos, com uma breve ajuda de Will (Noah Schnapp). Isso porque Vecna dá um jeito de vir ao mundo real, ludibriar Hopper (mais uma vez) usando como gancho a imagem de sua filha falecida e acabar com o plano de Kali, El e Max.

    No final, a bomba criada por Mike (Finn Wolfhard), que usa Purple Rain de Prince como ativador, fecha o Mundo Invertido de uma vez por todas, mas acaba levando junto o seu único amor em um sacrifício final. Como? Bem, é meio impossível saber. 

    Mike até cria uma teoria de que seria impossível El sair do caminhão sem ser vista, ainda mais com os bloqueadores de poderes ativados pelos militares. Em sua tese, Kali, que foi morta pelos militares no laboratório, teria feito um último ato de projetar uma ilusão da irmã, permitindo que El contatasse Mike e se despedisse dele em um lugar distante.

    A verdade é que nunca saberemos, pois tanto a opção de El escapar para o Mundo Invertido e ser engolida pelo abismo, quanto ela ter fugido com a ajuda de Kali, são igualmente difíceis de acreditar. O fato de deixar a decisão para o espectador só mostra o quanto essa primeira parte do episódio tem tanto medo de arriscar, que basicamente impediu que Stranger Things aproveitasse sua grandiosidade para terminar em um nível próximo ao que foi feito em sua quarta temporada. 

    Mesmo o sacrifício de El sendo algo totalmente esperado e previsível, a sua execução foi protocolar e todo o epílogo segue exatamente a mesma cartilha. Um salto de 18 meses que coloca Hopper novamente como xerife da cidade (mesmo após ser considerado morto na terceira temporada), todos livres de qualquer consequência em relação ao arco dos militares, além de uma Hawkins vazia de significado.

    O epílogo, em si, melhora muito o episódio final, pois ele se concentra no fator que fez o público se apaixonar por essa produção: o foco nos personagens. Em uma condução intimista, colocando todos eles para jogar D&D e abrir espaço para uma nova geração, a porta dessa história é finalizada de forma agridoce, com Mike sendo o único a carregar consigo alguma consequência de tudo o que aconteceu ao longo deste último ano.

    CRÍTICA - Stranger Things tem final agridoce e protegido em plástico bolha
    Créditos: Divulgação / Netflix

    E o fato do epílogo voltar às origens e sair do escopo “vamos salvar o mundo”, faz com que tudo o que aconteceu antes seja, basicamente, esquecido. Se a temporada fosse os quatro primeiros episódios com alguns detalhes do volume 2 e o episódio final, não faria diferença alguma e o resultado seria basicamente o mesmo.

    Esse entendimento se estende também aos personagens mais velhos e que, tirando Robin (Maya Hawke), tem seu protagonismo limitado nos últimos episódios da saga. Nancy (Natalia Dyer), Jonathan (Charlie Heaton), Robin e Steve se encontram para uma última conversa, mostrando o que aconteceu com suas vidas após a batalha final. Um momento que parece envolver uma emoção real desses atores que dedicaram boa parte de suas vidas a esses personagens.

    Ao fazer a audiência dedicar tantas horas, acredito que Stranger Things poderia ter feito escolhas melhores e valorizado principalmente a personagem que mais sofreu nessa jornada: Eleven. O discurso de Hopper sobre ela ter perdido tudo faz total sentido, mas é quase irônico quando a personagem não consegue nem mesmo atingir todo o seu poder para embarcar na luta final que acarreta, alguns minutos depois, no seu aparente adeus.

    E aqui temos que dar muitos créditos à ótima atuação de Millie Bobby Brown, que mais uma vez carrega os momentos emocionais que marcam os finais de cada temporada da série. Millie e Finn Wolfhard são o coração desse encerramento, e merecem muito reconhecimento pelos seus trabalhos.

    Para além do excelente elenco, vale pontuar também uma das melhores decisões do roteiro, que é evitar que Vecna embarcasse num arco de redenção. O vilão opta por ser vilão até o fim, mesmo que isso signifique ser derrotado de forma pouco inspirada. O embate com Will é um ótimo segmento para Jamie Campbell Bower brilhar mais uma vez no papel de Henry.

    Quase um paradoxo, Stranger Things tem um final ok para um dos maiores fenômenos da televisão dos últimos anos. É um alívio não ser ruim como o encerramento de outras séries famosas, e acredito que esse medo tenha permeado boa parte das decisões feitas aqui, mas é também um término que pouco ou nada acrescentou na jornada desses personagens.

    Veredito

    Jogando no seguro, Stranger Things encerra sua grande jornada retornando ao que tornou a série tão popular: o amor por seus personagens. Ao optar por um encerramento com uma cena menor, intimista e emocional, a produção minimiza o impacto das escolhas contraditórias feitas no início do capítulo e torna a conclusão em algo agridoce. Um fim ok, mas abaixo do nível que fez da série um dos maiores fenômenos da televisão na última década.

    Nossa nota

    3 / 5

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    Assista ao trailer:

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