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    CRÍTICA – Emergência Radioativa peca pela cautela, mas reacende um debate necessário

    A estreia de Emergência Radioativa na Netflix rapidamente chamou a atenção do público brasileiro. Afinal, o caso do Césio-137 na cidade de Goiânia, em 1987, é um dos piores acidentes radioativos do mundo, levando a quatro mortes diretas confirmadas e dezenas de pessoas contaminadas. A produção criada por Gustavo Lipsztein não só apresenta a tragédia para quem nunca tinha ouvido falar do caso, em um Brasil que infelizmente sofre de memória curta, como também busca ser uma espécie de crítica ao sistema e homenagem às vítimas. No entanto, o tom ameno, por muitas vezes, torna a minissérie otimista demais para uma história que denuncia o descaso com o elo mais carente da sociedade.

    A direção de Fernando Coimbra no primeiro episódio dá o tom necessário para a trama. Tudo começa com a descoberta de uma sucata por catadores em uma clínica de radioterapia abandonada no centro da cidade. Eles vendem o material para um ferro-velho e, lá, trabalhadores começam a abri-lo, encontrando o pó radioativo azul que chama atenção por brilhar no escuro. A construção dessas cenas é puro suspense e pânico: o espectador vê o objeto sendo transportado de um lado para o outro, ficando exposto por mais de duas semanas na sala de estar de uma família.

    Nesse sentido, a série se divide em partes. Depois de mostrar como a contaminação se espalhou entre as pessoas e os bairros mais carentes de Goiânia, a produção passa a explorar as consequências. Johnny Massaro é o físico nuclear Márcio, personagem que funciona como uma condensação de vários profissionais reais que atuaram na tragédia. Por mais que Massaro seja um ótimo ator, seu personagem soa caricato na maior parte do tempo e isso se deve ao roteiro e à direção. Ao colocá-lo como fio condutor para explicar o que está acontecendo, ele se torna descolado daquela realidade, como se exemplificar e comparar com acidente de Chernobyl fosse mais importante para a série. A falta de proximidade com o público também pesa. Há o artifício da esposa grávida, mas falta uma cena em que Márcio realmente confronte o impacto da tragédia.

    Do mesmo modo, vemos o desenrolar da história politicamente e cientificamente por meio de outros personagens. Dr. Orenstein, diretor da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), interpretado por Paulo Gorgulho, é uma boa adição. Sua sensibilidade contrapõe o pragmatismo de Márcio e funciona como contraste aos políticos, como o governador de Goiás, vivido por Tuca Andrada. Ainda assim, sua participação se limita muito à imprensa, e seria mais interessante vê-lo atuando diretamente com as vítimas.

    Um dos pontos mais fortes da minissérie é o núcleo das vítimas do desastre. Emergência Radioativa foca especificamente na família do dono do ferro-velho, Evenildo (Bukassa Kabengele), que recebeu o material contaminado, mostrando a desconfiança em relação às autoridades e médicos. Há uma tentativa de retratar a revolta desses personagens, mas em alguns momentos ela recai em estereótipos que associam pessoas pobres e negras à agressividade. Por outro lado, é nítido o esforço da série em sensibilizar e construir um discurso de superação, mesmo diante da morte de uma criança.

    A sensação que fica é que esse tipo de narrativa convence pouco. Como falar em superação quando famílias inteiras perderam suas casas e pertences por um erro banal? A série se exime de responsabilizar órgãos institucionais, colocando panos quentes em uma discussão que permanece viva até hoje. Pode-se argumentar que o foco era dar voz às vítimas, mas isso também é pouco desenvolvido, especialmente em um desfecho ingênuo, marcado por frases de efeito como “nós vamos atrás do que é nosso”.

    A falta de tato também se reflete fora da narrativa. A produção foi filmada em São Paulo e, apesar da tentativa de recriar Goiânia, o resultado soa artificial, como se a história pudesse acontecer em qualquer lugar do Brasil. Essa ausência de regionalismo enfraquece ainda mais a ambientação de um evento tão enraizado em um contexto específico. Emergência Radioativa tem em mãos uma história potente e, por vezes, acerta, mas frequentemente opta pelo caminho mais simples para contar algo que exige complexidade.

    Veredito

    Emergência Radioativa traz à tona um dos acidentes radioativos mais graves do mundo, evidenciando as falhas do sistema diante da população mais vulnerável. A série resgata essa história com cautela, mas aposta em um tom excessivamente conciliador no desfecho, o que a torna branda quando deveria ser mais incisiva.

    Nossa nota

    3/5

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    Assista ao trailer:

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