O cinema de Noah Baumbach é marcado por histórias disfuncionais. Seus protagonistas são pessoas errantes, presas a relacionamentos problemáticos. Isso torna seus filmes dramáticos, mas nunca excessivos. Há sempre um humor leve que nos aproxima dessas histórias e humaniza seus conflitos.
Em Jay Kelly, seu novo filme estrelado por George Clooney e Adam Sandler, o diretor retorna ao tema das conexões e, principalmente, da ausência delas, e de como isso interfere na construção do próprio ser. Ainda que esteja longe de ser sua melhor obra, como História de um Casamento ou A Lula e a Baleia, há uma ideia central que torna o longa interessante.
Lançado internacionalmente em diversos festivais de cinema e disponibilizado na Netflix em 20 de novembro de 2025, Jay Kelly é um filme metalinguístico que se apropria da imagem pública de George Clooney para contar a história de um grande astro do cinema, adorado por todos, mas ainda humano e atravessado por conflitos familiares. Perto do fim de sua carreira, Jay tenta se reconectar com as filhas e com o pai e, para isso, embarca em uma viagem pouco convencional, acompanhado principalmente de seu agente Ron, vivido magistralmente por Adam Sandler.
O filme tenta constantemente trazer Jay para o plano do real, como se dissesse “ei, ele é como a gente”, embora saibamos que isso não é totalmente verdade. Ainda que esteja sempre cercado de pessoas, Jay insiste em afirmar que está sozinho. É a velha síntese do astro que, ao chegar no auge, percebe quem realmente importa. Esse sentimento poderia se desenvolver melhor ao longo do filme, mas há algo de cínico em Jay. Sem nunca perder o sorriso no rosto, ele rompe com um velho amigo da mesma forma que atravessa um trem repleto de fãs amarrados à sua imagem.
Fica claro que Jay ama a própria imagem. Por isso, quando Baumbach tenta trazer o personagem para o chão, o filme funciona apenas em partes. Clooney é carismático, mas falta peso em suas ações. Sente-se a ausência de uma vulnerabilidade real, que vá além do arquétipo do astro em crise. Essa falta de coesão torna o filme excessivamente polido.
Quando o roteiro revisita o passado de Jay e mostra como ele conseguiu o papel que pertencia a um amigo e o levou ao estrelato, temos talvez o momento mais sujo do personagem. Ainda assim, até sua catarse com a morte do diretor que lhe deu a primeira oportunidade, Peter Schneider, vivido por Jim Broadbent, soa agradável demais, especialmente considerando que Jay havia recusado seu último projeto anos antes.
Felizmente, Adam Sandler surge como um contrapeso essencial. Em um papel intimista e autêntico, ele torna o filme mais palpável. Quando todos começam a abandonar Jay, é Ron quem permanece ao seu lado, como amigo e como agente. A relação entre os dois é, sem dúvida, um dos pontos altos do longa. Há cumplicidade, afeto e, ao mesmo tempo, a presença constante dos negócios, que nunca deixam de falar alto.
Sandler já provou diversas vezes sua habilidade no drama, especialmente com personagens frágeis, e aqui não é diferente. Vale lembrar sua parceria anterior com Baumbach em Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe, em um papel igualmente marcante.
Outros nomes orbitam Jay Kelly, ainda que em menor escala. Patrick Wilson aparece como o segundo cliente de Ron, em uma participação pontual. Laura Dern, como a assessora de imprensa Liz, brilha sempre que surge em cena e tem um ótimo entrosamento com Sandler. Billy Crudup é excelente em sua única cena como Timothy, o amigo. Já Riley Keough, no papel da filha mais velha, é quem realmente oferece um contraponto à figura endeusada de Jay.
No fim, o longa patina em seus próprios temas, sem se aprofundar como poderia. Isso acontece pela forma superficial com que seu protagonista é tratado, o que é uma pena, já que ideias e material não faltam.
Veredito

Jay Kelly acompanha a vida de um astro de cinema perto do fim de sua ascensão. O filme de Noah Baumbach funciona principalmente como um estudo de personagem e uma homenagem à carreira de George Clooney. O elenco é extraordinário, com Adam Sandler entregando um trabalho preciso e sensível, mas falta carisma à história e, sobretudo, mais personalidade.
3 / 5
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